A biodiversidade da Grande Ilha, no Maranhão, acaba de ganhar um novo integrante oficial. Pesquisadores identificaram uma nova espécie de planta endêmica — ou seja, que só existe naquela região — batizada popularmente de jurubeba-da-ilha. O achado acende um alerta: a espécie já foi classificada como ameaçada de extinção.
Até o momento, a planta só foi encontrada em duas localidades de São Luís: na Área de Proteção Ambiental (APA) do Itapiracó e no Parque Estadual do Bacanga.
O processo de descoberta
O caminho até a confirmação da nova espécie levou cerca de dois anos. De acordo com os pesquisadores, a planta foi coletada durante o processo de levantamento florístico das espécies do gênero Solanum na Ilha de São Luís. "A ideia inicial desse trabalho era identificar todas as espécies do gênero Solanum da ilha, que é o mesmo gênero do tomate, da batata, da berinjela, entre outros vegetais. Mas, no caso aqui, a gente queria saber quem são as espécies selvagens da ilha", explica Lucas Marinho, professor da Universidade Federal do Maranhão.
A coleta inicial ocorreu há cerca de dois anos, mas, de início, a equipe não conseguiu desvendar a identidade do arbusto. "Ao coletá-la, nós não conseguimos de pronto identificá-la. Então, demos um nome provisório de uma espécie relativamente próxima, relacionada, e mantivemos esse nome como um material para ser ainda confirmado se era ou não essa espécie", revela Lucas.
A virada de chave veio com o ganho de experiência da estudante Helen Tâmara Castro Sampaio, primeira autora do artigo. Com o auxílio do especialista Leandro Giacomin, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela pôde determinar que de fato se tratava de uma nova espécie. "Até então, a gente tinha só um material que havíamos coletado na Área de Preservação Ambiental do Itapiracó. Então, ela analisou bastante esse material, ilustrou, tomou medidas e de fato viu que era uma espécie ainda desconhecida para a ciência", completa o pesquisador.
Flores brancas e ramos complexos
Visualmente, a jurubeba-da-ilha é muito semelhante a outras plantas que ocorrem no Maranhão, como o Solanum paludosum, o Solanum eitenii e o Solanum apiculatum. Segundo os botânicos, "todas essas três espécies são bem parecidas e possivelmente são plantas relacionadas geneticamente".
No entanto, duas características marcantes separam a novidade das demais:
- Inflorescências ramificadas: É a principal diferença que a separa de sua parente mais próxima, a Solanum paludosum. Na jurubeba-da-ilha, "as inflorescências são ramificadas. Então, as flores saem assim de diversos ramos".
- Cor das flores: A coloração entrega a identidade logo de cara. Enquanto a espécie vizinha possui flores roxas, as flores da jurubeba-da-ilha "são alvas", ou seja, completamente brancas.
Papel ecológico ainda é mistério
Por se tratar de um achado recente, a ciência ainda tenta entender como a planta interage com o ecossistema local. Os cientistas afirmam que "ainda não é possível dizer qual é o papel ecológico dessa espécie dentro do ecossistema que ela habita".
As plantas foram encontradas na APA do Itapiracó e no Parque Estadual do Bacanga, habitando normalmente a margem desses fragmentos florestados. "São arbustos escandentes, ou seja, arbustos que com o tempo ficam pendentes sobre outras plantas. É possível que tenha interações com abelhas, interação com outros insetos, mas isso é algo que ainda precisa ser investigado, uma vez que a espécie é nova e a gente ainda não tem esse estudo ecológico e de interação mais aprofundado", pondera a equipe.



