O sindicato de bancos que emprestou R$ 1,8 bilhão aos Correios, em junho de 2024, acionou uma cláusula contratual para bloquear o dinheiro que a estatal recebia por meio do faturamento na prestação de seus serviços, durante o segundo trimestre de 2025. A informação consta em um documento de análise da situação econômico-financeira da empresa, elaborado pelo Departamento de Controladoria da Diretoria Econômico-Financeira (DIEFI), ao qual o g1 teve acesso com exclusividade.
Cenário de alta criticidade
O documento afirma que o bloqueio imposto pelos credores caracteriza um cenário de alta criticidade, com impactos financeiros, operacionais e institucionais de grande magnitude. A cláusula acionada previa estabilidade no estoque de precatórios a pagar pelos Correios. Precatórios são ordens de pagamento emitidas pela Justiça para que a União quite dívidas com pessoas e empresas. No entanto, devido à necessidade de reconhecer novas perdas com processos judiciais ao longo do ano, o volume de precatórios aumentou, levando os bancos a exercerem seus direitos contratuais.
Direitos dos bancos
O contrato previa que os bancos poderiam reter integralmente os valores depositados nas contas garantia, executar de imediato as garantias fiduciárias e exigir o pagamento antecipado da totalidade da dívida. Com isso, a estatal enfrentou um aperto de caixa no segundo semestre de 2025, com falta de liquidez, comprometendo o pagamento de fornecedores e afetando a prestação de serviços.
O relatório aponta que, além de agravar a restrição de caixa, essa condição ameaça a continuidade de serviços essenciais, compromete a cadeia de fornecedores estratégicos e fragiliza a capacidade de cumprimento das obrigações trabalhistas e tributárias. O presidente dos Correios, Emmanoel Schmidt Rondon, afirmou que a questão mais aguda era a liquidez, que afetava a operação e a capacidade de recuperação da empresa.
Renegociação do contrato
Para retomar o acesso ao faturamento, os Correios renegociaram o contrato com o sindicato de bancos formado por Citibank, BTG Pactual e Banco ABC do Brasil. O acordo alterou o estoque de precatórios, estabelecendo um limite máximo de R$ 2,5 bilhões reconhecidos e suspendendo a apuração de novos casos entre setembro e dezembro de 2025.
A mudança gerou custos adicionais. A empresa pagou uma taxa de dispensa de obrigação contratual no valor de R$ 44,8 milhões, quitada em duas parcelas, em novembro e dezembro de 2025. Além disso, as condições financeiras do empréstimo foram alteradas: a taxa de juros, inicialmente de 3% ao ano mais a taxa DI, passou para 4% ao ano mais DI entre 28 de setembro e 28 de novembro, e depois para 5% ao ano mais DI a partir de 28 de novembro. Com a renegociação, a taxa efetiva da operação subiu de 21,99% ao ano para 25,67%.
Cláusula de retorno à taxa original
O novo contrato incluiu uma cláusula que permite o retorno à taxa original de 3% ao ano mais DI caso a empresa consiga um aporte de capital superior a R$ 5 bilhões. Os prazos também foram alterados: os pagamentos, inicialmente semestrais a partir de maio de 2026, foram antecipados para janeiro de 2025 e passaram a ser mensais.
Com isso, a tomada de um empréstimo de R$ 12 bilhões tornou-se prioridade para recompor a liquidez financeira e quitar o débito de R$ 1,8 bilhão. Rondon finalizou afirmando que, no final de 2025, a empresa tinha cerca de R$ 5 bilhões em compromissos a pagar que não estavam sendo cumpridos por falta de liquidez.



