O alerta climático emitido pela Administração Nacional para Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) reforça uma preocupação que já ronda o agronegócio brasileiro: o avanço do El Niño em um momento delicado para o produtor rural. O fenômeno, provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, altera padrões de chuva e temperatura no mundo inteiro e pode mexer diretamente com produtividade, preços e competitividade das commodities brasileiras.
Para Gustavo Junqueira, colunista de Veja Negócios, o agro hoje vive uma combinação mais sensível entre clima, custo financeiro e tecnologia. Ele resume o desafio de forma simples: o agronegócio continua sendo uma “indústria a céu aberto”. Ou seja, há investimento pesado em máquinas, fertilizantes, crédito e tecnologia, mas a variável mais importante ainda foge ao controle do empresário rural. “O agro brasileiro sempre conviveu com o clima, mas hoje ele opera muito mais alavancado, sincronizado e intensificado”, afirma. Na prática, qualquer atraso de chuva, excesso de precipitação ou onda de calor pode provocar perdas mais rápidas e profundas do que no passado.
Impacto climático e econômico
O impacto climático também chega em um momento econômico complicado. Os preços internacionais da soja seguem pressionados, enquanto custos como fertilizantes e juros elevados continuam apertando as margens do produtor. Segundo Junqueira, o El Niño aparece justamente em um ambiente de “muito estresse financeiro” combinado com os efeitos da guerra no Oriente Médio. Isso significa que o produtor terá menos espaço para absorver prejuízos caso a safra enfrente problemas climáticos relevantes nos próximos meses.
Efeitos regionais do El Niño no Brasil
Os efeitos, porém, não serão iguais em todo o país. Historicamente, o El Niño costuma trazer excesso de chuvas para o Sul do Brasil, enquanto Norte e Nordeste enfrentam seca mais intensa. Centro-Oeste e Sudeste tendem a conviver com irregularidade climática, cenário que dificulta o planejamento agrícola. E é justamente aí que o fenômeno deixa de ser apenas um problema meteorológico e passa a ser também econômico. Como define Junqueira, “o El Niño não vai apenas redistribuir chuva; ele vai redistribuir margem, competitividade e valor entre regiões e culturas”.
Competitividade setorial
Nem todos os setores do agro devem perder. O especialista observa que algumas cadeias podem até ganhar competitividade dependendo do comportamento climático global. A cana-de-açúcar no Centro-Sul, por exemplo, pode encontrar um cenário mais favorável caso concorrentes importantes, como a Índia, sofram perdas de produtividade. Isso ajuda a explicar por que o mercado acompanha cada atualização climática quase como um indicador financeiro: o clima hoje interfere diretamente nas exportações, no câmbio e até na inflação dos alimentos.
Investimento em tecnologia para mitigar riscos
Diante desse cenário, o agro brasileiro começa a mudar sua relação com o risco climático. Em vez de apenas reagir às perdas, produtores e empresas passaram a investir em ferramentas de previsão, inteligência artificial, satélites e seguros paramétricos. “O agro está deixando de apenas reagir ao clima e começando a administrar o clima”, diz Junqueira. A frase resume uma transformação importante: o campo brasileiro entrou definitivamente na era da gestão climática, porque depender apenas da sorte virou um risco caro demais.



