O sonho da paternidade acompanhou André e Bruno desde o início do namoro. Há 16 anos, os dois construíram uma vida em Campinas (SP) entre estudos, viagens, trabalho e planos para o futuro. Juntos, também mantinham um desejo que parecia distante, mas nunca deixou de existir: ter um filho. Sonho que antes de ganhar forma era apenas um pedido feito em uma novena, mas que hoje espalha alegria pela casa. Caetano, de 1 ano e meio, foi gerado por meio de uma barriga solidária, cedida pela prima de André. Seu nascimento ocorreu em 12 de outubro de 2024, Dia de Nossa Senhora Aparecida.
Um milagre celebrado
“Não tem outro jeito de a gente pensar nisso a não ser como um milagre mesmo”, diz André Luiz Ferreira Zimmerman. “Ele poderia nascer em qualquer dia, mas nasceu justamente no dia de Nossa Senhora, para quem a gente rezou durante todo o processo”. No Brasil, a barriga solidária é a gestação em que uma mulher gera um bebê para outra pessoa ou casal, sem fins lucrativos, conforme as regras do Conselho Federal de Medicina (CFM).
O encontro e o início da jornada
A história da chegada começou muito antes da gravidez. Natural de Marília (SP), André se mudou para Campinas para fazer pós-graduação. Na cidade, conheceu Bruno Ferreira Zimmerman, também mariliense, em uma balada. “Foi uma noite que a gente ficou e nunca mais se separou”, lembra André. Os dois tinham pouco mais de 20 anos quando começaram a vida juntos. “A gente não tinha nada. Estava começando a vida mesmo”, conta Bruno. “Fomos estudar, nos especializar, viajar, conquistar nossa casa, nosso carro. E fomos nos preparando para o sonho de sermos pais.”
Desde o começo do relacionamento, a paternidade aparecia nas conversas do casal. André, no entanto, tinha um desejo específico: que o filho viesse por meio de uma barriga solidária e que a gestação fosse feita por alguém com vínculo afetivo com eles. “Eu não queria que fosse algo comercial. Não queria ir para o exterior ou fazer isso de uma forma distante. Queria que fosse alguém ligado à nossa história”, afirma.
Fé, novenas e incertezas
Católicos praticantes, os dois começaram a rezar juntos pedindo pela realização do sonho. “A gente começou a fazer uma novena para Nossa Senhora”, conta André. Enquanto ele mantinha a fé de que conseguiriam realizar o sonho pela barriga solidária, Bruno lidava com mais dúvidas. “Eu não acreditava muito que isso fosse acontecer. Achava que estava demorando demais”, lembra. Algumas pessoas chegaram a se oferecer para gerar o bebê do casal, mas, segundo eles, muitas falas surgiam em tom de brincadeira. “Num casal hétero que enfrenta dificuldade para engravidar, as pessoas têm cuidado para não machucar. Com a gente, às vezes isso vinha como piada.”
Foi então que André decidiu procurar quem realmente imaginava desde o início para participar da história: uma prima por parte de pai com quem tinha forte vínculo afetivo desde a infância. “Eu cuidava dela quando ela era bebê. Tinha uma ligação muito forte”, conta. Quando recebeu o convite, Alieysha Mikaela da Silva Sacuman, hoje aos 29, aceitou quase imediatamente. “A gente falou para ela pensar com calma, resolver algumas questões pessoais primeiro. Depois voltamos a conversar e ela confirmou que queria fazer isso por nós”, lembra.
Autorização, espera e representatividade
O caminho até a gestação envolveu consultas, exames, acompanhamento psicológico e autorização do Conselho Federal de Medicina (CFM). Como a prima não era parente de até quarto grau, o processo precisou passar por avaliação especial do conselho. “Hoje amigas também podem fazer barriga solidária, mas é preciso comprovar vínculo afetivo e passar por entrevista no CFM”, explica Bruno. A autorização chegou em setembro de 2023, como um presente de aniversário para ele. Antes disso, o casal viveu momentos que interpreta como sinais de fé ao longo da novena que fazia. Um deles aconteceu quando a prima ganhou três rosas de uma cliente desconhecida no mesmo dia da entrevista com o conselho. Para alguns católicos, “rosas” são um sinal espiritual por causa de uma associação à Virgem Maria, santos e experiências de consolação divina. “A gente estava viajando e ela mandou foto das flores. Eu falei para o André: nosso filho vai vir”, recorda Bruno.
Depois da autorização, ainda foram necessários meses de preparação para que o útero da gestante estivesse apto a receber o embrião. “O médico precisava que a espessura do útero chegasse a um nível adequado. Todo mês a gente criava expectativa e precisava esperar mais um pouco”, diz André. A transferência embrionária aconteceu em 28 de janeiro de 2024. A confirmação da gravidez mudou a vida do casal e também o alcance da história deles nas redes sociais. Até então, o Instagram dos dois tinha cerca de 2 mil seguidores. Hoje são 76 mil. Eles começaram a publicar vídeos das consultas, do teste positivo, do chá revelação e da preparação para a chegada. “Muita gente começou a perguntar como funcionava o processo, quanto custava, quem podia fazer”, diz Bruno. “A gente percebeu que quase não existia informação sobre isso.”
Para o casal, compartilhar a trajetória também se tornou uma forma de representar outras famílias homoafetivas. “Hoje a gente consegue existir como família porque outras pessoas vieram antes e enfrentaram preconceitos enormes”, afirma André. “Então sentimos que também era importante mostrar que existe amor, união e acolhimento dentro da nossa casa.” O condomínio onde vivem, em Campinas, participou ativamente da chegada de Caetano Ferreira Zimmerman. Vizinhos organizaram o chá de bebê durante uma reunião de terça. “A casa ficou cheia. A gente nem queria fazer festa, mas os vizinhos mobilizaram tudo”, lembra Bruno.
Caetano cresceu na barriga da prima
Durante toda a gravidez, uma das maiores preocupações do casal era como a prima se sentiria emocionalmente ao gerar um bebê que não seria dela. Ela passou por acompanhamento psicológico e psiquiátrico, exigidos pelo processo médico. “Mas ela sempre nos tranquilizou”, afirma André. “Ela dizia: ‘Eu quero ver vocês cuidando do Caetano. Estou fazendo isso por amor’.” Além disso, segundo o casal, nunca houve dúvidas sobre o vínculo afetivo estabelecido. “Ela participa da nossa vida até hoje. Vai aos aniversários, ao batizado, passa o Natal com a gente quando consegue”, conta Bruno. “Isso era muito importante para nós. Não queríamos que ela desaparecesse da nossa história.”
'Sofri preconceito junto deles'
Alieysha diz que nunca teve dúvidas sobre participar do processo. Prima de quarto grau de André, ela conta que acompanhou de perto, ao longo dos anos, o desejo do casal de construir uma família. “Eu sempre vi o amor deles pelas crianças”, afirma. “Eu falava: se a gente consegue realizar o sonho de ter filho, por que eles não? E por que eu não posso fazer isso?” Na época do convite, a jovem, que tem dois filhos, estava em processo de separação e tinha memórias não muito positivas de gestações anteriores, mesmo assim, decidiu seguir adiante. “Tudo foi na base da conversa, super tranquilo”, lembra. “O único pedido que eu fiz foi que eu queria operar para não ter mais filhos, porque eu sofro muito na gravidez.”
Durante a gestação, ela enfrentou enjoos intensos, dengue e descobriu pedras na vesícula, mas diz que recebeu apoio constante do casal. “Mesmo sabendo que eu ia passar mal, eu quis realizar esse sonho deles. E eles em nenhum momento me desampararam”, conta. “Depois, só de ver a recompensa, de ver que deu tudo certo, de ver eles felizes e o cuidado que eles tiveram comigo, foi gratificante demais.” Porém, a parte mais difícil não foi a gravidez em si, mas o preconceito enfrentado ao longo do processo. “Eu achei que as pessoas iriam aceitar mais, mas a sociedade está doente”, diz. “Eu sofri preconceito junto com eles.” Alieysha ouviu comentários de pessoas que diziam que ela estava “dando embora um filho”, além de questionamentos sobre a capacidade de André e Bruno criar uma criança por serem um casal homoafetivo. “Todo mundo fala: ‘mas eles são dois homens’. E eu respondia: ‘eles cuidavam das minhas crianças com o maior amor e carinho.” Também sofreu preconceito dentro de um hospital. “Uma enfermeira perguntou: ‘se eles se separarem, com quem a criança vai ficar?’. Eu falei: ‘ué, a criança é deles. Para mim não volta’.”
Apesar disso, nunca se arrependeu da decisão. “Quando o Caetano nasceu, eu chorei muito. Eu senti amor por ele, sim. Ele é o filho do meu coração. O vínculo que a gente criou é eterno”, afirma. “O que mais me tranquiliza é a forma que o Caetano tá sendo criado sendo bem cuidado, me tranquiliza mais ainda que não é só dinheiro que não vai faltar pra ele, mas não vai faltar amor e respeito.” Hoje, Alieysha segue presente na vida da criança e da família. “Não é que eu tive o Caetano e nunca mais vou ver. Não. Eu estou sempre presente”, diz. “A ligação é muito forte.” Questionada se faria tudo novamente, responde sem hesitar: “Mil vezes, sem pensar duas vezes”. “Eu aprendi que o amor não está no bem material e nem no dizer ‘eu te amo’. Está no gesto, na dificuldade, no cuidado e na família.”
Um amor imaterial
O parto aconteceu em 12 de outubro de 2024. Para André e Bruno, o dia permanece como a memória mais marcante da vida dos dois. “Se Deus falasse que a gente poderia reviver um único dia da nossa vida, seria o dia do parto”, diz André emocionado. “Parecia que a gente não estava neste mundo. Era uma atmosfera celestial.” Hoje, a rotina gira em torno do filho. O casal se reveza entre o trabalho e os cuidados com Caetano, que já acompanha os pais em viagens desde os três meses de vida. “A nossa vida mudou completamente, mas mudou para melhor”, afirma Bruno. “É um amor que a gente não conhecia.” Os dois fizeram cursos de gestante, aprenderam a dar banho, cuidar do umbigo e organizaram toda a rotina para receber o bebê. Bruno conseguiu licença parental e passou sete meses em casa com o filho. “A gente se preparou muito para viver isso”, diz. Enquanto observa o menino crescer, André ainda se surpreende com a realização do sonho que parecia tão distante anos atrás. “A gente vê ele andando pela casa e pensa: ‘Meu Deus, como isso aconteceu na nossa vida?’.”
O que é a barriga solidária
A barriga solidária, também chamada de útero de substituição, é regulamentada pela Resolução n° 2.320, de 2022, do Conselho Federal de Medicina (CFM). Diferentemente de outros países, como nos Estados Unidos, no Brasil o método só é permitido quando não tem caráter lucrativo. Ou seja: é um ato altruísta e a gestante não recebe pagamento. A mulher candidata à barriga solidária precisa seguir regras: ter ao menos um filho vivo; a idade máxima das candidatas à gestação por técnicas de reprodução assistida é de 50 anos; estar em boas condições de saúde física e mental; pertencer à família de um dos parceiros em parentesco consanguíneo até o quarto grau (primeiro grau: pais e filhos; segundo grau: avós e irmãos; terceiro grau: tios e sobrinhos; quarto grau: primos). Caso a cedente temporária do útero não tenha laços familiares, o CFM precisa autorizar. Para ser barriga solidária, a pessoa ou o casal interessado devem buscar uma clínica de reprodução assistida juntamente à cedente, isto é, a pessoa que cederá o útero para gerar o bebê. Eles passam por avaliações médicas e psicológicas, além de assinar um termo de consentimento. O embrião pode ser gerado com o material genético dos futuros pais ou de doadores. Após a assinatura dos termos, a gestante deixa de ter direitos parentais. Isso significa, em tese, que ela não pode se recusar a entregar o bebê. No entanto, o Brasil ainda não tem leis que regulamentem a prática.



