Resgate heroico em enxurrada histórica marcou transformação urbana em Rio Preto
Há quase uma década, o cenário das avenidas Bady Bassitt e Alberto Andaló em dias de chuvas intensas mudou radicalmente em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. A realidade atual, que difere completamente das situações trágicas que resultaram em mortes, moradores ilhados e resgates perigosos, só foi possível após a conclusão da monumental obra antienchente em abril de 2017.
O episódio dramático que comoveu o país
Entre as cenas que jamais serão esquecidas pela população está o resgate dramático da balconista Gisele Cristina Nunes, então com 29 anos, ocorrido em 7 de outubro de 2009. A imagem do resgate, acompanhado pela equipe de reportagem da TV TEM, foi exibida no Jornal Nacional daquela noite e repercutiu em todo o território nacional através de outros telejornais da Rede Globo.
A balconista estava em uma moto e foi surpreendida pela enxurrada ao tentar atravessar a Avenida Alberto Andaló, no trecho próximo ao cruzamento com a Rodovia Washington Luís, durante um forte temporal. A cena registrada mostrava a mulher agarrada a um carro, com água na altura do peito, em situação de extremo perigo.
Ação corajosa dos voluntários
O desespero de Gisele chamou a atenção de pessoas que estavam em um posto de combustíveis que funciona naquele trecho. Com uma corda, eles se organizaram rapidamente para providenciar a retirada da balconista da enxurrada que avançava com força impressionante.
"Na hora em que eu a vi levantando a mão, você não pensa duas vezes, você tenta salvar", declarou, à época, à TV TEM, o frentista Reginaldo Sousa Figueiredo, uma das pessoas que atuaram heroicamente no resgate da mulher.
Durante a operação de salvamento, Gisele chegou a se soltar de um dos voluntários por causa da força avassaladora das águas e desapareceu por instantes angustiantes. Foi quando uma das pessoas avistou um de seus braços levantado, enquanto o outro permanecia firmemente agarrado a um carro. Por fim, após grande esforço coletivo, a balconista foi colocada em segurança na caçamba de um pequeno utilitário, aguardando até que o nível da água baixasse suficientemente.
Tragédias que antecederam as obras
Os sucessivos alagamentos das principais avenidas da cidade não resultaram apenas em prejuízos comerciais, mas também em perdas humanas trágicas. Em 19 de janeiro de 2010, o bombeiro Luciano Rodrigues de Souza, com apenas 24 anos à época, trabalhava no resgate de uma pessoa ilhada no canteiro central da Avenida Bady Bassitt quando foi arrastado pela correnteza e perdeu a vida.
Durante o mesmo temporal, o aposentado Lucas de Cândio, de 75 anos, também morreu afogado dentro do próprio carro, vítima das águas que invadiram rapidamente o veículo. Esses episódios trágicos, somados ao resgate dramático de Gisele e a pressão constante da imprensa e da comunidade, aceleraram a busca por uma solução definitiva para o problema crônico das enchentes.
As monumentais obras antienchentes
A Prefeitura de Rio Preto anunciou, em agosto de 2013, o início das obras antienchentes, com intervenções planejadas em 50 bairros da cidade. Inicialmente orçada em R$ 125 milhões, a intervenção urbana consumiu mais de R$ 160 milhões dos cofres públicos até sua conclusão.
Os serviços focaram na modernização completa do sistema de drenagem pluvial, incluindo:
- Construção de piscinões para contenção de águas pluviais
- Implantação de aduelas e redes de tubos de concreto
- Canais nos córregos Borá e Canela que atravessam as avenidas críticas
- Sistema subterrâneo de drenagem na Avenida Brasilusa
As obras foram executadas em etapas complexas, começando pelos pontos mais críticos. A Avenida Brasilusa, que até então era um dos locais mais problemáticos em dias de chuva intensa, foi interditada diversas vezes para construção de canal subterrâneo e quatro poços para conter a água que descia até a Alberto Andaló.
Contratempos e desafios durante a execução
Previstas para serem concluídas em dois anos, as obras antienchentes se arrastaram até 18 de abril de 2017, quando a Avenida Bady Bassitt foi totalmente liberada, marcando a última etapa do megaprojeto. Os trabalhos na avenida foram iniciados em maio de 2015 e foram marcados por significativa polêmica.
Comerciantes questionaram a eficácia das intervenções por causa de várias enchentes que ocorreram durante o período de obras. O bloqueio prolongado do trânsito na Bady Bassitt dificultou severamente o acesso às lojas e o movimento de clientes diminuiu drasticamente, resultando em prejuízos financeiros consideráveis para o comércio local.
Ainda no fim de novembro de 2015, seguidas pancadas de chuva afetaram os serviços na avenida, abrindo uma cratera que ficou cheia d'água, com pequenos desmoronamentos de pavimentação. Por causa desse contratempo inesperado, foram necessários mais tempo e recursos financeiros adicionais para concluir os trabalhos conforme o planejado originalmente.
Legado de segurança e transformação urbana
Após 23 meses de várias interdições e investimento massivo, a Avenida Bady Bassitt foi totalmente liberada em abril de 2017, marcando o fim definitivo das obras antienchentes que transformaram a realidade da cidade. O episódio do resgate heroico de Gisele Cristina Nunes em 2009 permanece como um marco simbólico do período anterior às intervenções, quando a população enfrentava riscos reais a cada temporal.
A atuação corajosa dos voluntários, registrada pela TV TEM, não apenas salvou uma vida, mas também contribuiu para acelerar as mudanças estruturais necessárias. Hoje, quase dez anos após o início das transformações, o cenário urbano de Rio Preto apresenta uma realidade significativamente mais segura, onde as chuvas intensas não representam mais a mesma ameaça que outrora colocava vidas em risco e causava prejuízos materiais consideráveis.
A memória do resgate dramático e das tragédias que o antecederam serve como lembrança permanente da importância do investimento em infraestrutura urbana adequada e da capacidade de superação da comunidade frente a desafios coletivos.



