Cemitério Submerso de Itaci: História Viva nas Águas de Furnas em Carmo do Rio Claro
No coração de Minas Gerais, o distrito de Itaci, em Carmo do Rio Claro, guarda uma história silenciosa e submersa pelas águas da Usina Hidrelétrica de Furnas. Construída na década de 1960, a barragem transformou radicalmente a paisagem, deixando o antigo cemitério do povoado isolado e acessível apenas por barco. Cercado por mato e vestígios de um passado movimentado, o local permanece na margem oposta do atual distrito, ainda abrigando sepultamentos e servindo como um símbolo pungente das mudanças provocadas pelo progresso.
Uma Travessia pelo Tempo e pela Água
A expedição especial “Travessia das Águas”, realizada pelo g1 Sul de Minas e a EPTV até 10 de abril, revela a dimensão e as histórias do Lago de Furnas, o maior reservatório de água doce do Sudeste. A travessia até Itaci é feita pelo lago, conhecido como “Mar de Minas”, utilizando uma balsa em funcionamento desde 1965, que leva cerca de 15 minutos. Do outro lado, vivem aproximadamente 120 moradores em um ambiente que preserva características de arraial, contrastando com o cemitério antigo, agora tomado pela vegetação, mas ainda com muros, colunas e sepultamentos antigos visíveis.
Memórias de uma Comunidade Transformada
Itaci foi fundado às margens do Rio Sapucaí, desenvolvendo-se em torno do comércio e da fé, com a primeira igreja dedicada ao Bom Jesus dos Aflitos. Com a formação do reservatório, uma nova povoação surgiu às margens do lago, junto com um novo santuário, enquanto o antigo cemitério ficou isolado. A lavradora Sueli Maria Maia Batista, que tem familiares enterrados no local, relata a dor da separação: “Muitos anos, muitos anos, porque depois que fez o cemitério de lá e assim que meu pai foi sepultado aqui, demorou pouco tempo, aí já não teve que enterrar minha mãe de outro lado.” Sueli tinha apenas 10 anos quando o pai morreu afogado nas águas que inundaram a região.
O Legado Cultural e Religioso
Dona Iolanda Pereira Iunes, de 92 anos, viveu o período anterior ao alagamento e recorda com nostalgia: “O Juscelino, quando vinha para a Boa Esperança, dar palestra, fazer comício, vinha de noite jantar na fazenda do pai da minha madrinha e posava tudo aí com aqueles homens, porque a fazenda era uma fazenda, parecia um palácio.” O antigo Itaci era um polo comercial vibrante, com imigrantes sírio-libaneses, portugueses e espanhóis, impulsionado pelo Rio Sapucaí. Hoje, o novo Santuário do Bom Jesus dos Aflitos atrai cerca de 15 mil fiéis em agosto, com uma imagem que pode ser obra de um discípulo de Aleijadinho, destacando seu valor cultural e espiritual.
Impactos e Números da Transformação
Carmo do Rio Claro é o município com a maior área alagada pelo Lago de Furnas, totalizando 208,06 quilômetros quadrados inundados, em uma área total de 1.065,685 km² e população estimada em 21.506 habitantes para 2025. O cemitério antigo se tornou um símbolo silencioso desse impacto, evidenciando o abandono forçado de espaços que faziam parte do cotidiano da comunidade. As águas não apenas mudaram a geografia, mas também redefiniram identidades e memórias, deixando um legado de resistência e adaptação.
Este cenário submerso continua a ser um testemunho vivo da história regional, onde cada visita de barco ao cemitério é uma jornada através do tempo, relembrando as profundas transformações que moldaram o Sul de Minas Gerais.



