A Prefeitura de São Paulo recebeu apenas uma proposta na nova licitação para retomar as obras dos túneis da Rua Sena Madureira, na Vila Mariana. O projeto, que promete beneficiar mais de 800 mil pessoas diariamente, está paralisado desde o ano passado após uma recomendação do Ministério Público devido a denúncias de corrupção em um contrato de gestões anteriores.
Protestos e Impactos Ambientais
Enquanto o processo licitatório avança, moradores da Vila Mariana continuam a protestar contra o corte de árvores na Rua Sena Madureira, realizado no contexto da obra da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). A intervenção no terreno é apontada por especialistas como um dos fatores que agravaram os problemas de inundação na região.
A comunidade Coronel Luís Alves, localizada na área afetada, ainda sofre com os impactos das fortes chuvas de dezembro e início de janeiro. Vídeos de 8 de dezembro mostram enxurradas e alagamentos que invadiram casas, causando prejuízos materiais. Moradores relatam que esses episódios se intensificaram após o início das obras. Esta é uma das duas comunidades que podem ter de ser removidas caso o projeto dos túneis seja concretizado.
Licitação Marcada por Polêmicas
A obra, que visa facilitar o acesso da Rua Sena Madureira à Avenida Ricardo Jafet com a construção de dois túneis de cerca de 1,6 km, foi inicialmente alvo de investigações. O MP apontou que a construtora Queiroz Galvão teria pago propina para vencer a licitação em 2010. Seguindo a recomendação do órgão, a administração municipal decidiu abrir uma nova concorrência.
Na nova disputa, apenas um consórcio, liderado pela Álya Construtora – empresa que sucedeu a Queiroz Galvão após mudança de nome – apresentou proposta. A prefeitura informa que a empresa não está proibida de participar de licitações. A proposta ainda será analisada por órgãos técnicos, que também avaliarão os impactos ambientais.
Contradições e Riscos Ambientais
A prefeitura reconhece a região como área de risco para inundações desde 2022. No entanto, uma vistoria realizada em 2024 pela administração municipal e pela construtora concluiu que o local não é classificado como Área de Preservação Permanente (APP) e que não foi identificada a presença de nascente.
Essa conclusão contradiz levantamentos anteriores da própria prefeitura. Um mapa de 1930 do Arquivo Municipal registra o córrego Embuaçu no terreno. Em 2019, após um desmoronamento, uma vistoria da Subprefeitura da Vila Mariana apontou que a área era de proteção ambiental, com a presença de um grande vale e nascente.
Com a obra paralisada, é possível ver no local estruturas de contenção construídas em diferentes etapas, o córrego que atravessa a área e muros erguidos pela prefeitura. Em um ponto, um muro de contenção permanece danificado após as chuvas recentes, evidenciando a força da água.
Antes da abertura da nova licitação, a prefeitura promoveu audiências públicas com a participação de mais de 500 moradores e uma consulta na plataforma Participe+. A fase de habilitação das empresas ocorrerá após a análise das propostas técnicas e comerciais, com datas a serem publicadas no Diário Oficial do Município.