Professora que chamou Itapetininga de 'cidade maldita' há 15 anos vira meme eterno do carnaval
Há exatos 15 anos, durante as festividades carnavalescas, uma declaração explosiva de uma foliã em Itapetininga, no interior de São Paulo, ecoaria pela internet e se tornaria um dos memes mais duradouros do Brasil. A professora de artes Ione Lao, então com 51 anos, concedeu uma entrevista ao repórter Nohlan Hubertus que, embora nunca tenha ido ao ar na televisão, foi publicada no YouTube e acumulou milhões de visualizações. Em seu desabafo, Ione não poupou palavras: "Detesto [o carnaval de Itapetininga]. Odeio. Eu estou aqui porque o juiz me considerou louca, tirou toda a minha grana da conta. Tirou tudo. Eu estou presa nessa cidade maldita e não posso ir para lugar nenhum".
O impacto viral e a vida reservada de Ione Lao
Desde a repercussão do vídeo, Ione Lao, hoje com 66 anos, transformou-se em uma figura quase mítica. Apesar do reconhecimento nacional, ela optou por uma vida reservada, evitando comentários públicos sobre o episódio. O g1 tentou contato com a professora e familiares nos últimos meses, mas ela preferiu manter o silêncio. Entre seus admiradores, destaca-se o jornalista e sociólogo Chico Felitti, que confessou ser "um grande fã" do vídeo viral e perseguiu uma entrevista com Ione por anos.
Chico Felitti finalmente conseguiu conversar com ela em 2023, para o primeiro episódio de seu podcast "Gente! Pessoas Comuns em Situações Extraordinárias". Ele revelou que, desde então, Ione deixou Itapetininga e agora reside em uma cidade não identificada do interior paulista. "Foi um processo de apuração simples, no sentido do que era ouvir uma pessoa que nunca tinha dado entrevistas depois de ter sido a protagonista de um vídeo viralizado", contou Felitti.
Desvendando o contexto real por trás do meme
Contrariando a impressão inicial, Ione Lao não é uma inimiga do carnaval. Na verdade, como explicou Chico Felitti, sua reclamação era direcionada à qualidade da programação festiva da cidade. "Ela fez as pazes com o carnaval. No vídeo, ela acredita que ficou muito com a impressão de que ela odeia o carnaval e, na verdade, não é bem assim. A Ione achava aquele carnaval meio 'mixuruca' para a cidade, que merecia um melhor", esclareceu o jornalista.
O principal problema de Ione com Itapetininga, segundo Felitti, envolvia conflitos com vizinhos, uma situação pontual que já foi resolvida. "A Ione ainda pula carnaval. Então, ainda é possível que uma pessoa qualquer do interior veja ela em alguma festa na rua e perceba que ela não odeia a festa, muito pelo contrário", afirmou.
A cidade hoje: mudanças e percepções locais
A equipe do g1 revisitou o local exato da entrevista, nas proximidades do número 480 da Rua Doutor Virgílio de Rezende, uma das vias mais movimentadas de Itapetininga. O cenário mudou significativamente desde 2011. Adriano Simões, de 53 anos, proprietário do salão em frente ao qual Ione gravou, expressou surpresa ao ver seu estabelecimento em um vídeo viral. "Fiquei bem surpreso quando vi", relatou.
Para Adriano, que mora na cidade desde o nascimento, Itapetininga "não é mais a mesma coisa", mas continua sendo um bom lugar para viver. Já Matheus José, estudante de letras e morador local, destacou que Ione é uma figura frequentemente lembrada, com seu paradeiro atual sendo um mistério comentado pela população. "É como se, de alguma forma, todos soubessem dela sem nunca a terem visto", observou.
Matheus também compartilhou sua visão sobre a cidade, concordando em parte com a descrição de "cidade maldita". "As opções de lazer são limitadas e qualquer coisa além dos costumes choca as pessoas e causa histeria. É um pouco careta, com pessoas que fingem abraçar um conservadorismo para não sofrer julgamentos", opinou. Ele comparou o impacto do meme de Ione ao fenômeno da "grávida de Taubaté", ressaltando como viralizações regionais podem projetar cidades no cenário nacional.
Assim, o legado de Ione Lao permanece vivo, não apenas como um meme sazonal, mas como um reflexo das complexidades urbanas e culturais de Itapetininga, uma cidade que, maldita ou não, conquistou notoriedade através da sinceridade ímpar de uma de suas moradoras.