Quaresma 2026: Papa pede jejum de palavras negativas e fiéis transformam sacrifício em solidariedade
Quaresma 2026: jejum de palavras e solidariedade transformam vidas

Quaresma 2026: Papa pede jejum de palavras negativas e fiéis transformam sacrifício em solidariedade

A quaresma representa um dos períodos mais significativos para a comunidade católica, compreendendo quarenta dias de preparação espiritual intensa para a celebração da Páscoa. Este tempo sagrado é tradicionalmente sustentado por três pilares fundamentais: a oração, a penitência e a caridade. Mais do que uma simples tradição religiosa, a quaresma propõe uma genuína transformação de atitudes e comportamentos no cotidiano dos fiéis.

Jejum das palavras: um chamado do Papa Leão XIV

No ano de 2026, o Papa Leão XIV reforçou esse apelo espiritual ao solicitar que os católicos pratiquem também um jejum das palavras negativas. A orientação pontifícia enfatiza a necessidade de evitar fofocas, críticas destrutivas e julgamentos precipitados, utilizando a fala como instrumento de construção e não de destruição. Esta proposta simples, porém profunda, busca concretizar o processo de conversão no dia a dia dos cristãos.

Sacrifício que se transforma em amor concreto

Segundo o padre Eduardo Augusto Belão, pároco da Paróquia Cristo Redentor em Várzea Paulista, interior de São Paulo, a quaresma não se resume apenas a abster-se de consumir algo. O sentido mais amplo reside em converter o sacrifício pessoal em gestos tangíveis de amor e solidariedade. Quando o jejum se transforma em caridade efetiva, a prática espiritual adquire um significado renovado e socialmente relevante.

Na comunidade liderada pelo padre Belão, essa proposta se materializa em ações concretas. Na Quinta-feira Santa, os fiéis são convidados a levar até a igreja os alimentos dos quais abriram mão durante o período quaresmal, ou então contribuir com apoio financeiro. A própria paróquia organiza a arrecadação e direciona os donativos para mais de vinte e cinco famílias que dependem desse suporte para complementar sua alimentação básica.

Oração e desejo natural de fazer o bem

Para muitos fiéis, essa transformação interior começa nos momentos silenciosos de oração. Dona Vera Lúcia Ferreira, dona de casa, relata que quando intensifica sua comunicação com Deus, percebe um crescimento natural no desejo de praticar o bem. Em sua experiência, a oração e o jejum caminham juntos, despertando gradualmente a vontade de ajudar o próximo de maneira espontânea e sincera.

Essa visão é compartilhada por Dona Mafalda Moreira, artesã, para quem a caridade transcende a mera entrega de bens materiais. A verdadeira doação pode se manifestar no alimento oferecido, no tempo dedicado ao próximo, na intenção pura de uma oração ou na simples disposição em cuidar de quem enfrenta dificuldades.

Fé que movimenta histórias reais em Jundiaí

Essa fé prática e transformadora gera impactos reais na sociedade. Em Jundiaí, a Casa de Nazaré acolhe atualmente trinta e cinco crianças e adolescentes afastados de suas famílias por decisão judicial devido a situações de risco. A instituição oferece muito mais que abrigo: proporciona acompanhamento especializado, auxilia na construção de rotinas saudáveis e cria oportunidades concretas de recomeço.

Durante o período quaresmal, a entidade sente diretamente os efeitos da mobilização dos fiéis. As doações aumentam consideravelmente e os estoques se mantêm mais abastecidos. Segundo Bruno Barbosa, coordenador técnico da casa, não chegam apenas alimentos. Muitas pessoas aproveitam esse tempo espiritual para organizar seus pertences e doar roupas, brinquedos e outros itens guardados em casa.

Frequentemente, ao realizar a entrega pessoalmente, os doadores conhecem de perto a realidade da instituição, o que abre espaço para novas formas de ajuda. "Temos pedagogos que vieram trazer doações e perceberam que poderiam oferecer aulas de reforço. Músicos que começaram a ensinar instrumentos para as crianças. Pessoas que passaram a ajudar na rotina da casa, na cozinha, na organização de eventos", relata Barbosa. Para ele, a quaresma funciona como uma verdadeira porta de entrada para a prática do bem, onde um gesto simples pode gerar um voluntário comprometido durante todo o ano.

Corrente do bem e voluntariado transformador

Parte significativa dessa corrente solidária passa pelas mãos de voluntárias dedicadas como Edvânia Bertani, corretora de imóveis que se tornou uma ponte entre doadores e a instituição. Quando surge uma necessidade específica, ela mobiliza grupos de mensagens, vizinhos e amigos, enchendo seu carro com donativos. Edvânia observa que, durante a quaresma, os corações das pessoas ficam naturalmente mais sensíveis e abertos à partilha.

Seu exemplo inspirou outras pessoas, como a psicóloga Elaine Medeiros, que decidiu transformar o café do qual abrirá mão durante o período quaresmal em doações regulares para a Casa de Nazaré. Para Elaine, a penitência adquire seu verdadeiro significado quando gera impacto real e positivo na vida de outras pessoas.

Do jejum à celebração da vida

A quaresma se encerra na Quinta-feira Santa, dando início ao Tríduo Pascal, período que relembra a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, culminando na celebração da Páscoa. Para os fiéis, após quarenta dias de reflexão profunda, jejum espiritual e prática constante da caridade, chega o momento celebrar a vida renovada e a esperança que nasce da solidariedade concretizada.