Momento crucial para a Igreja Católica no Brasil
Uma coincidência relevante marcará os próximos meses na estrutura hierárquica da Igreja Católica brasileira. O papa Leão 14 está prestes a nomear, praticamente ao mesmo tempo, os novos líderes de quatro das mais importantes arquidioceses do país: São Paulo e Rio de Janeiro, as circunscrições mais populosas; Aparecida, um dos maiores centros de peregrinação católica do planeta; e Manaus, coração da Amazônia, região que ganhou protagonismo sob o pontificado anterior de Francisco.
Com essas mudanças de comando, o pontífice americano tem a oportunidade histórica de imprimir sua visão na alta hierarquia do maior país católico do mundo. Para especialistas em religião, este será o momento crucial em que Leão 14 poderá começar a jogar com as cartas que tem na mão nos debates mais relevantes sobre os desafios contemporâneos da Igreja.
Renovação por idade limite
Os atuais líderes dessas dioceses atingiram ou estão prestes a atingir o limite de idade para aposentadoria compulsória determinada pelo Código de Direito Canônico. A norma estabelece que um bispo, ao se aproximar dos 75 anos, deve apresentar pedido de renúncia ao papa, que então combina um prazo para a transição do cargo.
Dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo desde 2007, completou 75 anos em setembro de 2024. O então papa Francisco solicitou que ele permanecesse no comando da maior arquidiocese do país até o final de 2026.
Dom Orani João Tempesta, que comanda a arquidiocese do Rio desde 2009, completou 75 anos em junho de 2023. Assim como Scherer, recebeu determinação para exercer a função por mais dois anos após seu pedido de renúncia.
Dom Orlando Brandes, à frente da arquidiocese de Aparecida há dez anos, é um caso especial: trabalhará até os 80 anos conforme determinação de Francisco. Nascido em abril de 1946, ele comanda a circunscrição do maior santuário católico do país há quase uma década.
Dom Leonardo Ulrich Steiner, que lidera a arquidiocese de Manaus desde 2019, completou 75 anos em novembro de 2023, seguindo o mesmo processo de transição.
Importância estratégica das nomeações
"O Brasil é um país estratégico para o catolicismo romano", analisa a antropóloga e cientista da religião Lidice Meyer, professora na Universidade Lusófona de Portugal. Ela argumenta que, se o pastoreio dos fiéis é responsabilidade dos padres locais, são os bispos que os supervisionam e administram sua atuação.
"Assim, a escolha desses arcebispos é extremamente importante", comenta Meyer. "Não tenho dúvidas de que Leão 14 está diante de uma grande oportunidade. A verdade é que ele já está pensando de maneira muito estratégica. Esses nomes não serão escolhidos de forma aleatória", complementa o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Perfis ideológicos distintos
A socióloga Tabata Tesser, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, classifica os quatro arcebispos em espectros ideológicos diferentes dentro da Igreja:
- Scherer: religioso de centro, moderado, representa "uma Igreja de estabilidade e governança"
- Tempesta: conservador, da direita eclesial, fortaleceu "uma Igreja de visibilidade e conciliação com o poder"
- Brandes: centro-esquerda eclesial, ligado ao trabalho pastoral com "coragem discursiva em temas sociais"
- Steiner: progressista pastoral, mais alinhado "à gramática eclesial que o papa deseja aprofundar"
O teólogo Raylson Araujo, pesquisador na PUC-SP, comenta que "são quatro bispos de formações distintas e, por conta disso, com linhas pastorais que se ajustam diante do povo ao qual eles foram designados".
Desafios regionais específicos
A transição nos comandos dessas arquidioceses é tema que vem sendo discutido pelo papa, que ouve religiosos de sua confiança na CNBB e o núncio apostólico no Brasil, Giambattista Diquattro.
Especialistas apontam que Leão 14 está diante de dois caminhos: continuidade dos perfis atuais ou nomeação de religiosos completamente afinados com sua visão. No entanto, as quatro localidades apresentam desafios muito diferentes:
- São Paulo: maior arquidiocese do país, atende cerca de 5 milhões de católicos
- Rio de Janeiro: segunda maior, com aproximadamente 3,5 milhões de fiéis
- Aparecida: recebeu cerca de 10,5 milhões de peregrinos apenas em 2025
- Manaus: vasta área amazônica com comunidades distantes e desafios ambientais únicos
Araujo explica que "os desafios de gerir igrejas fortemente urbanas, como São Paulo e Rio, é muito diferente de comandar uma vasta área com comunidades isoladas da Amazônia".
A marca do novo pontificado
Com menos de um ano no trono papal, Leão 14 demonstra continuidade ao papado de Francisco, mas com perfil mais discreto e cuidadoso. As nomeações para essas quatro arquidioceses estratégicas podem demonstrar de forma mais clara que estilo ele pretende imprimir ao catolicismo.
Para Moraes, as escolhas de Leão vão revelar "se ele quer preservar o legado de Francisco e consolidar isso ou se quer avançar um pouco mais". "Até agora, Leão segue na esteira de seu antecessor. Aos poucos, deve deixar sua marca", conclui o teólogo.
Este momento de transição representa não apenas uma renovação geracional na liderança da Igreja Católica no Brasil, mas também uma oportunidade para o papa Leão 14 definir os rumos do catolicismo no país que abriga a maior população católica do mundo.