40 ou 46 dias? Padre esclarece duração da quaresma na Igreja Católica
Padre explica duração da quaresma: 40 ou 46 dias?

40 ou 46 dias? Padre esclarece duração da quaresma na Igreja Católica

A quaresma é um dos momentos litúrgicos mais significativos para os católicos em todo o mundo, representando um período profundo de reflexão, penitência e caridade. Tradicionalmente, a Igreja Católica estabeleceu que ela dura 40 dias, mas, ao observar o calendário, a contagem aritmética resulta em 46 dias. Para desvendar essa aparente contradição e explorar o rico simbolismo presente no catolicismo, conversamos com o padre Tadeu Rocha, de Sorocaba (SP). Ele detalhou como o número 40 é recorrente dentro da Igreja e explicou a lógica por trás da contagem dos dias.

A contagem dos dias: 40 versus 46

"A quaresma inicia-se na Quarta-feira de Cinzas e termina na noite da quinta-feira da Semana Santa. Aritmeticamente, os dias somados dão 46. Porém, para a Igreja, o domingo é sempre lembrado como um dia de alegria, da Páscoa da ressurreição. Por isso, os domingos da quaresma não são contados. Assim, retirando os seis domingos, chegam-se aos 40 dias", esclarece o padre Tadeu Rocha. Essa distinção é fundamental para compreender a espiritualidade do período, onde os domingos são vistos como celebrações da ressurreição, não incluídos no tempo de penitência.

O simbolismo do número 40 na Bíblia

Dentro do principal livro da Igreja, a Bíblia, o número 40 aparece em diversos momentos e passagens, do Antigo ao Novo Testamento. Para a teologia, como explica o padre, esse tempo é considerado longo e significativo. "Na teologia, o tempo quaresmal faz referência a outros tempos de 'quaresma', que são considerados períodos relativamente longos que Deus concede para a nossa conversão", afirma.

Ele cita exemplos marcantes: "No Antigo Testamento, encontramos referências ao tempo em que Moisés caminhou com o povo hebreu: 40 dias e 40 noites no deserto, rumo à libertação. Outro momento é o Dilúvio, quando a Bíblia relata que choveu durante 40 dias e 40 noites". Tadeu também menciona a passagem de Jonas em Nínive, onde a cidade teve 40 dias para se converter, um período de penitência que incluiu o uso de cinzas, simbolismo que remete diretamente à Quarta-feira de Cinzas.

"Além disso, Jesus também fez seu retiro, a sua quaresma, que durou 40 dias e 40 noites. Por isso, a Igreja nos recorda esse tempo como um período favorável de conversão, de penitência e de arrependimento. É um convite para vivermos intensamente a quaresma", completa o padre, enfatizando a importância espiritual desse marco temporal.

Simbolismos litúrgicos da quaresma

Durante todo o período quaresmal, a Igreja adota simbolismos que perduram há séculos, como o uso da cor roxa nas vestes dos padres e nos paramentos das missas. "A liturgia atinge todo o ser humano, como o ouvido, o olhar e o olfato. Por isso, ela tem palavras, cantos, músicas e expressão corporal. Além disso, segue uma arquitetura própria do espaço e da decoração. Ela busca nos mostrar o mistério de Deus", explica Tadeu.

O padre detalha as cores litúrgicas básicas:

  • Branco: Lembra todas as festas de Cristo, é a cor da alegria, da ressurreição e da paz.
  • Verde: Utilizado durante a maior parte do ano litúrgico, remete à esperança e à natureza.
  • Vermelho: Usado em Pentecostes, celebrações dos mártires e na Sexta-Feira Santa, simbolizando o sangue de Cristo.
  • Roxo: Empregado na quaresma e no Advento, é uma cor séria que promove recolhimento e interiorização, refletindo o chamado à reflexão, oração, jejum e penitência.

O significado do jejum na quaresma

O padre explica que o jejum vai além de uma simples penitência. "O jejum nos educa e nos liberta, nos torna livres diante de qualquer coisa, seja comida ou bebida. É uma experiência: eu quero, eu posso, mas eu não vou fazer, porque não me convém, ou simplesmente porque eu não quero, ou porque vou renunciar a isso em favor de alguém, de alguma coisa, de uma ideia ou projeto. Tudo isso nos educa", afirma.

Ele acrescenta: "Papa Leão XIV nos disse para fazermos também um jejum de palavras que ferem o próximo. Olha só quantas coisas nós podemos jejuar! Além da carne, da comida saborosa ou de uma bebida, sobretudo daquilo que nos escraviza", finaliza, destacando a dimensão ética e social da prática.

Linha do tempo da quaresma

Para compreender a estrutura do período, segue uma breve cronologia:

  1. Quarta-feira de Cinzas: Marca o início da quaresma, com penitência, jejum e a imposição de cinzas como sinal de conversão.
  2. Primeiras semanas da quaresma: Tempo de reflexão, oração, caridade e preparação espiritual para uma mudança de vida.
  3. Domingo de Ramos: Abre a Semana Santa, recordando a entrada de Jesus em Jerusalém.
  4. Quinta-feira Santa: Celebra a Última Ceia, instituição da Eucaristia e do sacerdócio, iniciando o Tríduo Pascal.
  5. Sexta-feira Santa: Dia da Paixão e morte de Jesus, sem missa, apenas a celebração da Paixão.
  6. Sábado Santo: Dia de silêncio e espera, com a Vigília Pascal à noite, a celebração mais importante do ano litúrgico.
  7. Domingo de Páscoa: Encerra a quaresma e inicia o Tempo Pascal, celebrando a Ressurreição de Jesus.

Essa explanação do padre Tadeu Rocha oferece uma visão abrangente sobre a quaresma, unindo aspectos históricos, teológicos e práticos para enriquecer a vivência espiritual dos fiéis.