Grupo de amigos troca folia carnavalesca por jornada espiritual de 900 km de bicicleta
Enquanto milhões de brasileiros se preparam para os blocos e festas do Carnaval, um grupo de nove amigos de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, escolheu um caminho diferente: uma peregrinação de bicicleta de aproximadamente 900 quilômetros até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. A saída ocorreu na madrugada de quinta-feira (12), às 5h, partindo da Basílica Menor de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em sua cidade natal.
O maior ramal do Caminho da Fé
O trajeto escolhido pelos ciclistas faz parte do Ramal São José, considerado o maior percurso do tradicional Caminho da Fé. Renato Lima, empresário de 41 anos e organizador da jornada, explicou que o grupo planeja concluir a viagem em oito ou nove dias, mas reservou dez dias no total para lidar com possíveis imprevistos, como condições climáticas adversas.
A escolha estratégica do período do Carnaval tem uma razão prática: é quando todos os participantes conseguem alinhar suas agendas profissionais e pessoais para estarem juntos. Enquanto muitos aproveitam o feriado para festejar ou descansar, Renato e seus companheiros buscam renovação espiritual e fortalecimento da fé.
Motivações profundas e rotina exigente
Ao falar sobre suas motivações, Renato revelou: "O que mais me motiva, além de amar pedalar, é a fé e minha conexão com Deus. Tenho uma sensação de liberdade, prazer e ainda contribuo com a minha saúde. A peregrinação simboliza uma mudança de vida, em que buscamos a conversão e renovação do espírito".
A rotina dos ciclistas é intensa e começa cedo, por volta das 6h30, seguindo até o final do dia. As paradas para descanso ocorrem em pousadas ou hotéis previamente reservados. Nos primeiros dias, o grupo percorre entre 160 e 180 quilômetros, reduzindo gradualmente o ritmo nas etapas seguintes para respeitar os limites físicos.
Histórico de desafios e preparação física
Renato iniciou suas peregrinações em 2017, apenas três meses após começar a pedalar, quando aceitou um convite de última hora para fazer o trajeto de Águas da Prata até Aparecida. Este ano, além dos nove ciclistas que saíram de Rio Preto, outros três amigos se juntarão ao grupo em Águas da Prata.
Esta não é a jornada mais longa já realizada por Renato. Em uma ocasião anterior, ele partiu de Londrina, no Paraná, com cinco amigos rumo a Aparecida, completando mais de mil quilômetros em nove dias. "Foi bem desafiador, mas aprendi que nossos limites estão na cabeça. Todos podem, basta se dedicar. Quando chegamos a Aparecida, a sensação é maravilhosa, a fé nos leva onde quisermos e a sensação é de dever cumprido", relatou.
Para manter a resistência necessária para essas longas jornadas, Renato mantém uma rotina rigorosa de preparo físico, pedalando de duas a três vezes por semana durante a semana e reservando os fins de semana para percursos mais longos, fundamentais para desenvolver resistência e bom condicionamento.
Significado emocional profundo
A peregrinação ganhou um significado ainda mais profundo para Renato em 2021, após a perda de sua mãe, Maria Aparecida, vítima da Covid-19. Dois meses antes do falecimento, ele planejava sair de Rio Preto e se encontrar com ela e outros familiares em Aparecida. Abalado pela perda, Renato desistiu da jornada e chegou a vender sua bicicleta.
Quinze dias depois, um sonho comovente mudou sua perspectiva: ele viu sua mãe e avó em Aparecida, que lhe disseram que estariam sempre com ele. Essa experiência foi decisiva para que retomasse seus planos e continuasse com as peregrinações.
A devoção de Renato à Nossa Senhora Aparecida veio por influência direta de sua mãe. "Ao ensinar o amor à Mãe de Jesus, minha mãe me mostrou como estar perto dele. Manter essa devoção, para mim, é honrar o exemplo dela e manter viva essa tradição de fé, amor e proteção que atravessa o tempo", afirmou emocionado.
Enquanto o Brasil se entrega à folia carnavalesca, esses nove ciclistas pedalam em direção a Aparecida, transformando o feriado em uma jornada de fé, superação e renovação espiritual que já perdura por vários anos e continua a inspirar aqueles que buscam significado além das festividades tradicionais.