Álbum póstumo resgata momento histórico de Gal Costa com Luiz Meira
Os anos 2000 representaram um período desafiador na trajetória de Gal Costa (26 de setembro de 1945 – 9 de novembro de 2022). A icônica cantora atravessou essa década com álbuns de menor ambição artística, editados por gravadoras nacionais de pequeno porte como MZA Music, Indie Records e Trama, além de apresentações com repercussão mais modesta. A plena forma artística só seria recuperada a partir de 2011 com o álbum Recanto, idealizado por Caetano Veloso especificamente para recolocar a artista no merecido lugar entre as maiores vozes do Brasil de todos os tempos.
O brilho além dos holofotes
Contudo, mesmo fora do centro das atenções e do hype midiático, o cristal vocal de Gal nunca deixou de brilhar. Shows intimistas de voz e violão realizados com o talentoso violonista Luiz Meira demonstravam que aquela voz única, luminosa e sagaz permanecia intacta em sua essência. Agora, um álbum póstumo previsto para lançamento no final de maio, viabilizado através da parceria entre as gravadoras Biscoito Fino e MZA Music, vem capturar precisamente esse momento.
Gal Costa – Ao vivo no Teatro Castro Alves flagra a artista durante esse período que gerou discos e apresentações considerados de menor importância no contexto da música brasileira e na própria história da cantora. O registro documenta um show apresentado por Gal ao lado de Luiz Meira em 22 de maio de 2003, no emblemático Teatro Castro Alves, em Salvador, cidade natal da artista, dentro do projeto cultural Vozes do Brasil.
Repertório que harmoniza épocas
O roteiro musical cuidadosamente elaborado harmonizou grandes sucessos da carreira de Gal com composições do então mais recente álbum da cantora, Gal bossa tropical (2002). Este disco, considerado irregular pela crítica, foi produzido pela gravadora MZA Music, criada e dirigida por Marco Mazzola, que também atuou como produtor musical tanto desse trabalho de 2002 quanto do álbum póstumo que será lançado.
Do repertório de Gal bossa tropical, a artista incluiu no show canções como Onde Deus possa me ouvir (2002) e Quando eu fecho os olhos (2002), músicas então inéditas oferecidas a Gal pelos compositores Vander Lee (1966 – 2016) e Chico César, respectivamente. Também fez parte da seleção Socorro (Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, 1994), tema originalmente lançado na voz de Cássia Eller (1962 – 2001), mas que encontrou popularidade através da gravação de Gal, sendo considerado um dos poucos acertos do álbum de 2002.
Single triplo como aperitivo magistral
Como antecipação do álbum completo, o single triplo Eu vim da Bahia / Azul / Força estranha reafirma com eloquência que Gal Costa nunca dependeu da aprovação da crítica ou do hype momentâneo para brilhar em qualquer tempo ou cenário.
O samba Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil, originalmente gravado por Gal em seu primeiro single de 1965, surge como destaque principal nesta nova versão. A divisão manemolente do canto revela uma Gal infinitamente mais extrovertida e madura do que a voz ainda tímida da jovem cantora de 1965. A artista navega com maestria pelo ritmo do samba, demonstrando uma evolução vocal impressionante.
Evolução vocal em evidência
Se em 1965 Gal ainda parecia estar em seu casulo artístico, em 2003 ela voava com liberdade absoluta – em perfeita sintonia com o violão sensível de Luiz Meira – através dos tons sinuosos de Azul (1982), canção de Djavan que a própria Gal apresentara ao Brasil no álbum Minha voz (1982).
Disponível a partir desta quarta-feira, 17 de abril, este single triplo oferece uma prova incontestável: mesmo que os álbuns e shows daqueles anos 2000 possam ter sido eventualmente menores em escala ou ambição, a voz monumental que ecoa em Força estranha nunca se diminuiu ou perdeu sua grandeza. O registro histórico resgata não apenas um momento específico da carreira de Gal Costa, mas principalmente a permanência de seu talento inigualável, que transcendia circunstâncias e continuava a encantar com a mesma intensidade de sempre.



