Do açougue em Manaus ao topo das plataformas: a ascensão meteórica do Filho do Piseiro
"Buhhh, buhhh, e vai queimar as caixas, é?" Este bordão, que imita a potência de um sistema de som automotivo, tornou-se a assinatura sonora de Everton da Silva de Souza, conhecido artisticamente como Filho do Piseiro. Aos 23 anos, o amazonense natural de Iranduba realizou um feito extraordinário: sem o apoio de uma grande gravadora, conquistou as paradas de sucesso com apenas duas músicas, ambas utilizando a famosa técnica vocal da "boca do médio grave".
A técnica que conquistou milhões
Com mais de 22 milhões de reproduções somadas entre as faixas "Raparigas" e "Meu Pai Paga a Minha Faculdade", o artista alcançou o Top 15 dos virais do Spotify. A técnica, que ele descreve com maestria, não depende de equipamentos de distorção, mas da descoberta de uma frequência específica no tórax. "Você tem que procurar a ressonância na caixa dos peitos", explica Everton ao detalhar o método que o tornou famoso.
Em uma analogia curiosa, o cantor compara o processo ao filme "Procurando Nemo": "É igual quando a Dory fala 'baleês'. Você tem que procurar esse 'baleês' dentro de você. Uuuhh, uuuuh... Quando achar, coloca a letra B e solta o ar". O resultado é o característico "Buh Buh" que se tornou sua marca registrada.
Das calçadas de Manaus aos palcos do Brasil
Antes de se tornar o fenômeno do piseiro, a realidade de Everton Silva era bem diferente. Entre 2019 e 2020, ele cantava com voz e violão na calçada de um açougue pertencente ao seu tio em Manaus, com o objetivo de atrair clientes e conseguir apresentações em festas de aniversário e confraternizações. "Meu primeiro show foi em uma costelada, lá em Manaus o pessoal costuma se reunir para fazer churrasco de fogo de chão", relembra com nostalgia.
Essa fase inicial foi marcada por desafios: "Levei muito golpe. Eu não sabia cobrar, não entendia nada de contrato. Tudo o que eu queria era cantar e animar a galera". O investimento inicial veio de um presente de R$ 1 mil do tio, com o qual comprou violão, microfone, pedestal e uma caixa de som básica.
A virada que mudou tudo
A transformação artística aconteceu quando Everton começou a unir o forró de vaquejada ao teclado eletrônico e à técnica de imitação da caixa de bateria, conhecida como "caixa cachorra". Mas o reconhecimento em larga escala veio apenas no segundo semestre de 2025, quando um vídeo dele cantando "Meu Pai Paga a Minha Faculdade" viralizou nas redes sociais após um show com Claudio Ney & Juliana.
"A Juliette postou e o Neymar colocou no story dele", conta o artista sobre o momento em que celebridades começaram a compartilhar seu conteúdo. A faixa, regravada posteriormente com a dupla, atingiu impressionantes 7,5 milhões de reproduções no Spotify.
Empresa independente e estrutura de popstar
Após a explosão de popularidade, a carreira deslanchou rapidamente. Everton mudou-se do Amazonas para o Ceará para facilitar a logística dos shows e hoje opera como uma "empresa independente", sem gravadora, mas com cachês que chegam a R$ 80 mil, como o recebido no Carnaval de Itapipoca.
Nas redes sociais, soma mais de 3 milhões de seguidores no Instagram e TikTok. "Tenho banda, staff, videomaker, produtor, camarim e até ônibus agora... É tudo o que eu sempre quis", comemora. Apesar do sucesso aparente, o artista revela que todo o lucro está sendo reinvestido: "Tem gente que pensa que já estou rico, milionário. Eu falo: 'Ô, Jesus, eu recebo'. Mas o pirão mesmo, ainda não caiu".
Projeção nacional e próximos passos
Embora tenha se projetado no Norte e consolidado a carreira no Nordeste, o maior volume de público do Filho do Piseiro concentra-se atualmente no Sudeste, que lidera as estatísticas de ouvintes e engajamento. O primeiro show em São Paulo está marcado para 25 de abril, com "expectativa muito alta" segundo o artista.
Para o período de São João, já tem 26 shows confirmados e ambiciona mais: "Até brinco com os meninos da equipe: 'tomem seus remédios, tomem suas vitaminas', porque a pisadinha vai ser grande. Eu quero 80 dias seguidos de forró".
Retorno triunfal às origens
Um marco importante acontecerá em maio: no dia de seu aniversário de 24 anos, Everton retorna a Manaus para gravar seu primeiro DVD. O evento, marcado para 16 de maio, contará com show de abertura de Claudio Ney & Juliana e representará um fechamento de ciclo para o artista que começou na região.
"Estou muito feliz de realizar esse sonho de fazer o primeiro DVD na minha casa, perto do meu povo. Foi a minha terra que primeiro me abraçou no início da minha carreira", emociona-se o cantor, que além de regravar sucessos com novos arranjos, planeja lançar músicas inéditas no projeto.
Com o álbum "Só Poesias no Médio Grave (Vol.1)" já lançado e slogans como "O Rei do Médio Grave" estampando seus materiais, Filho do Piseiro consolida-se como um fenômeno da música popular brasileira, provando que talento, técnica peculiar e conexão autêntica com o público podem construir uma carreira de sucesso mesmo fora dos circuitos tradicionais da indústria musical.



