Vendedores de praia conquistam passarela do Rio Fashion Week em estreia histórica
Três vendedores ambulantes que trabalham nas praias do Rio de Janeiro e Niterói viveram uma experiência transformadora nesta semana ao desfilar pela primeira vez em um dos maiores eventos de moda do país. Convidados pela marca Blue Man, os modelos subiram à passarela do Rio Fashion Week no Píer Mauá, convertendo rotinas de trabalho sob o sol intenso em uma estreia memorável diante de estilistas, convidados especiais e câmeras de todo o Brasil.
Retorno do evento e histórias da areia
O Rio Fashion Week, que retornou ao calendário da cidade após aproximadamente uma década de ausência, reúne desfiles de vinte marcas até sábado e simboliza a retomada vigorosa do setor fashion na capital fluminense. Para os três ambulantes – Romulo do Coco, Leo do Mate e Laurinha do Camarão – a participação transcende um simples convite pontual, representando a abertura de novos caminhos profissionais e visibilidade inédita para trajetórias que nasceram e se consolidaram na areia das praias cariocas.
Laurinha do Camarão: 20 anos de resiliência e agora modelo
Laura Pontes da Silva, de 60 anos, conhecida como Laurinha do Camarão, personifica múltiplas identidades: vendedora de camarão, influenciadora digital, mãe, avó e, agora, modelo. Ela desfilou pela Blue Man na noite de quinta-feira, marcando um capítulo extraordinário em sua vida. Com quase 400 mil seguidores no Instagram e 566 mil no TikTok, Laurinha construiu uma carreira nas redes sociais após anos de trabalho árduo.
Há duas décadas vendendo camarão na Praia de Charitas, em Niterói, ela sustentou cinco filhos e sete netos com esse ofício. "Eu comecei a vender camarão porque me vi nas condições sem marido, com meus filhos, e Deus me deu esse dom, essa voz. Eu chego e canto, as pessoas gostam e se encantam", relata. A fama digital surgiu acidentalmente: "Quando eu comecei, não tinha um telefone. O pessoal começou a gravar e viralizou na internet. Foi Deus que fez eu ser convidada para o desfile, mas o que eu sei fazer de melhor é vender camarão".
Ao ser questionada sobre como se define, Laurinha responde com firmeza: "Eu sou uma sobrevivente. O pessoal fala que eu sou famosa, eu não sou famosa. Famoso fica numa sala com ar-condicionado enquanto eu tenho que colocar a cara no sol".
Emoção e novas portas para Romulo do Coco
Rômulo, de 26 anos, trabalha há apenas quatro meses em uma barraca na praia do Leblon, na Zona Sul do Rio, e jamais imaginou seguir carreira na moda. Indicado por um amigo que já desfilava, ele participou de um teste e foi aprovado, após ganhar visibilidade com um vídeo viral. "Nunca pensei em trabalhar com moda. Estou bem surpreso e feliz. Expectativa muito grande, ainda mais se tratando de um desfile tão grande. Vai ser uma grande porta aberta para mim", compartilhou com entusiasmo.
Leo do Mate: conciliando estudos e trabalho
Leonardo, de 18 anos, morador de Oswaldo Cruz, na Zona Norte, também vive um momento de transformação. Desde os 16 anos, ele vende mate na praia do Leblon, conciliando a rotina exaustiva com os estudos. "Eu estava na escola ainda, trabalhava de manhã e à noite ia para a escola. O desfile está sendo algo muito novo, muito surpreendente, até por ser a primeira vez. Estou nervoso", confessou. Entre nervosismo, expectativa e entusiasmo, eles compartilham o mesmo sentimento: a estreia na passarela representa não apenas um desafio, mas uma oportunidade concreta de mudar de vida.
Wes: realizando o sonho de desfilar
Wes, também de 26 anos, possui uma relação antiga com o universo fashion. Como designer de moda, ele já trabalha há dois anos na área, costurando e desenhando peças, mas sempre sonhou em estar na passarela. "Mesmo antes de trabalhar com moda eu já tinha o sonho de desfilar. Mas pela minha altura, isso demorou um pouco, por não ter a altura padrão de passarela", explicou. A estreia só pareceu real quando ele chegou ao evento: "Estou muito feliz. Só fui acreditar que isso está acontecendo de verdade quando cheguei aqui e pensei: 'caraca, é real'. Todo modelo quando começa tem essa vontade de desfilar, é o auge".
Carioca, Wes destacou a importância de estrear justamente na cidade onde nasceu: "Eu já estava querendo desfilar, ainda mais por ser no Rio. Meu look está muito maneiro, conversando com o cabelo [que está pintado]. Vai ser muito maneiro". Com penteados inusitados e looks ousados, a participação desses modelos reforça a diversidade e a inclusão no cenário fashion brasileiro, mostrando que histórias genuínas podem brilhar até nas passarelas mais exclusivas.



