
Numa daquelas jogadas que a gente até torce o nariz de início, mas depois entende que era mais do que necessária, o governo do Rio resolveu botar a mão na massa — ou melhor, no microfone. A partir de agora, quem puxa o samba nas avenidas não é mais "só" artista: é patrimônio.
Isso mesmo. O governador Cláudio Castro assinou um decreto que transforma os intérpretes de samba-enredo em patrimônio cultural imaterial do estado. A cerimônia, cheia de emoção — e por que não dizer, um pouco de atraso —, aconteceu no Palácio Guanabara e juntou vozes conhecidas de quem não perde um desfile nem por nada.
Por que essa decisão é um divisor de águas?
Olha, não é exagero dizer que sem o intérprete, o samba não chega na arquibancada. É ele o responsável por dar alma àquela letra que foi criada com suor, suor e mais suor. O cara segura a emoção, puxa o refrão e ainda tem que aguentar a pressão de milhares de olhos vidrados nele.
O negócio é que até então, essa galera tava num limbo — reconhecida pelo público, mas sem amparo legal que garantisse visibilidade além dos quatro dias de folia. Agora, a coisa muda de figura.
O que muda na prática?
Além do título bonito — que, convenhamos, já é uma conquista e tanto —, a medida abre portas. Sim, portas que antes pareciam emperradas. Estamos falando de políticas públicas direcionadas, editais de cultura com recorte específico e até possibilidade de captação de recursos via leis de incentivo.
Não é pouco. É, na verdade, um passo gigante para valorizar uma figura que há décadas é central no Carnaval, mas que viveva à sombra das alas e das fantasias.
Ah, e tem mais: a decisão não veio do nada. Veio de um baú de histórias e suor de gente como Dominguinhos do Estácio, Neguinho da Beija-Flor e Wantuir, da Portela. Vozes que carregam tradição e, agora, carregam também um título que as eterniza.
E o povo do samba, o que achou?
A reação foi, como era de se esperar, de alegria misturada com alívio. Afinal, era uma dívida histórica que finalmente estava sendo paga. Alguns chegaram a emocionar — e não vou mentir, até quem tava só assistindo pela TV deve ter sentido um calafrio.
Não é todo dia que a gente vê a cultura sendo levada a sério por quem tem poder de decisão, não é mesmo? Mas quando acontece, é daquelas coisas que restauram um pouco a fé no sistema.
O Rio é, e sempre será, a capital mundial do Carnaval. E agora, com os intérpretes devidamente reconhecidos, a avenida fica um pouco mais completa. Mais viva. Mais nossa.
É ou não é pra comemorar?