Fliparacatu 2024: O que Esperar do Festival Literário que Promete Agitar o Interior de Minas
Fliparacatu 2024: Literatura e Democracia em MG

Não é exagero dizer que organizar um festival de literatura no Brasil de hoje é, no mínimo, um ato de coragem. E a terceira edição da Fliparacatu, que rola em Paracatu, Minas Gerais, entre 27 de junho e 1º de julho, parece abraçar essa complexidade de peito aberto.

O tema? "Literatura e Democracia". E olha, a escolha não poderia ser mais certeira — ou mais arriscada. Num país onde as palavras parecem ter perdido o peso e a polarização virou regra, discutir o papel da literatura na construção do espaço público é quase um manifesto.

Um festival com personalidade própria

Diferente da sua prima famosa de Paraty, a Fliparacatu não quer ser um espelho. Quer criar seu próprio reflexo. E isso fica claro na curadoria, que mistura nomes consagrados — como a poeta Alice Ruiz e o escritor Ignácio de Loyola Brandão — com vozes emergentes e debates que cutucam a ferida.

Não vai ser só sobre livros, não. A programação esbarra em música, performance, e até numa feira de publicações independentes que é, pra muitos, o verdadeiro termômetro da cena literária atual.

Os fantasmas na sala

Aqui vai o pulo do gato: como falar de democracia sem escorregar no discurso fácil? A pergunta pairou no ar durante o anúncio do evento. Um dos curadores, sem rodeios, lembrou que a literatura não é panfletária — ela tensiona, questiona, desconforta.

E num momento em que certos grupos tentam calar vozes dissonantes, esse tensionamento vira quase uma resistência. Polêmica? Pode apostar que sim. Mas também é daí que nasce o debate de verdade.

Além dos holofotes

O que me pega, sinceramente, é ver como um evento desse respira fora do eixo Rio-São Paulo. Paracatu vira, por alguns dias, um microcosmo do que poderia ser uma política cultural menos centralizadora. E não, não é só "levar cultura ao interior". É entender que o interior também produz — e muito.

A feira de publicações independentes, por exemplo, é aquela mistura do profissional com o amador, do experimental com o tradicional. Onde mais você vê isso?

O desafio que fica

Claro, nem tudo são flores. Manter um festival vivo depois da euforia inicial é complicado. Captar recursos, engajar a comunidade, não depender só do calendário oficial... são desafios que a Fliparacatu ainda vai ter que encarar de frente.

Mas a sensação que fica é de esperança. Ou melhor, de teimosia. Porque insistir na literatura como espaço de diálogo, hoje, é um ato político das mais intensas. E Paracatu, sem querer, pode estar dando uma aula disso.

Vamos ficar de olho.