Multidões se reúnem para venerar os restos mortais de São Francisco de Assis na Itália
Filas imensas se formaram na Basílica de São Francisco em Assis, na Itália, onde pelo menos 400 mil pessoas se aproximaram dos restos mortais do santo católico durante a exposição pública que marcou o 800º aniversário de sua morte. A comovente peregrinação, que se estendeu até o domingo passado, dia 22 de março, demonstrou a força atualíssima desta figura histórica do catolicismo mundial.
Uma oportunidade única na vida para os fiéis
Para Fiorella Farina, moradora da região de Reggio Emilia cujos filhos foram batizados como Francesco e Francesa, a exposição representou uma oportunidade única na vida. "Precisávamos dele no momento histórico que atravessamos", declarou emocionada. A inscrição em latim "Corpus Sancti Francisci" na vitrine marcava a solenidade do momento.
O frei Giulio Cesáreo, diretor de comunicação do convento franciscano de Assis, destacou que "é experiência significativa tanto para crentes como para não crentes, pois Francisco testemunha, com ossos tão danificados, tão consumidos, uma entrega total em nome do povo".
A confirmação científica e histórica dos restos
A ossada exposta coincide perfeitamente com as descrições relatadas em textos do século XIII, que mencionavam uma "estatura mediana, pequeno, cabeça regular e redonda, rosto um pouco oval e protuberante, testa plana e pequena". Testes científicos comprovaram a datação do esqueleto, embora existam naturalmente aqueles que desconfiem da validade do que se viu.
O interesse público foi extraordinário porque apenas uma vez antes, em 1978, e por apenas alguns dias, um grupo minúsculo de teólogos pôde se aproximar da relíquia. Quando São Francisco morreu em 3 de outubro de 1226, foi inicialmente sepultado na pequena igreja de San Giorgio em Assis.
A história secreta do corpo do santo
Dois anos após sua morte, o Papa Gregório IX o canonizou e lançou a pedra fundamental de uma basílica para abrigar o túmulo. Contudo, na véspera da transferência, um auxiliar de confiança de Francisco levou o corpo e o sepultou secretamente na basílica, temendo que pudesse ser roubado.
O cadáver permaneceu escondido debaixo de uma coluna, sem identificação, até 1818, quando escavações descobriram o segredo e o Papa Pio VII confirmou que os despojos pertenciam verdadeiramente a São Francisco. O frei William Short, professor de espiritualidade cristã na Escola Franciscana de Teologia da Universidade de San Diego, explica que "escondê-lo tinha motivação estratégica. Era uma questão de segurança. Ele tinha potencial para ser um santo realmente grande — e quem fica com o corpo fica com os peregrinos".
Por que São Francisco ressoa tanto no século XXI?
Mas por que, afinal, São Francisco tem tanto apelo aqui e agora? O personagem histórico — que aos 18 anos participou da revolta dos citadinos da comuna de Assis, que cresceu em meio ao conflito entre nobres e plebeus, que foi feito prisioneiro de guerra em Perugia — estabelece contato direto com a realidade do século XXI.
Sua notória aproximação com os animais, inicialmente passarinhos como retratado em telas do Renascimento, depois com cães e gatos, seu zelo com a natureza, fazem dele uma espécie de herói medieval com preocupações atualíssimas com o meio ambiente. Não há, enfim, santo mais ecológico na história do catolicismo.
Um santo para tempos de turbulência social e econômica
Sensível aos efeitos das mudanças sociais e econômicas de um tempo de turbulência — como o de hoje, aliás — ele rompeu com o ofício de mercador para adotar uma vida de penitente. Restaurava templos, dava esmolas, praticava o jejum e dedicava-se à oração em locais retirados, até finalmente romper com a família, por volta de 1206, para iniciar a pregação que daria início ao movimento franciscano.
Com ele, os leigos passaram a se aproximar da Igreja — e não por acaso, o jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio virou o papa Francisco, cuja alcunha tinha uma bonita motivação. A ideia do pontífice, herdada por Leão XIV, era abrir a porta para os aprendizes, ampliar o espaço para o cidadão comum, o melhor — e talvez o único — caminho para recuperar o rebanho perdido para as denominações protestantes. Não há, enfim, santo mais social.
A releitura constante de uma figura histórica
Andréia Frazão, professora especializada em história medieval da Universidade Federal do Rio de Janeiro, observa que "Francisco, ao longo da história, desde sua santificação, foi sendo moldado aos humores de cada época, em sucessivas releituras. A sedução dele é hoje muito forte".
Há, naturalmente, o evidente fascínio pelos restos expostos na Itália — mas o interesse global cresce porque a figura combina perfeitamente com o mundo contemporâneo, suas ansiedades ecológicas, suas desigualdades sociais e sua busca por espiritualidade autêntica.
A conexão com a nova geração de santos
No fim de março, a ossada será novamente recolhida, escondida do escrutínio público — mas sua influência não cessará, agora de mãos dadas com o ítalo-britânico Carlo Acutis, o primeiro membro da geração millennial — dos nascidos entre o início da década de 1980 e meados dos anos 1990 — a se tornar um santo da Igreja Católica.
Ele era conhecido por fazer trabalhos de evangelização on-line, sendo considerado o "padroeiro da internet". Morreu em 2006, aos 15 anos, de leucemia. O corpo do franciscano Acutis também está em Assis, na Igreja de Santa Maria Maggiore, dentro de uma vitrine, vestido com calça jeans, tênis Nike e moletom — uma imagem que talvez não fosse estranha ao Francisco histórico, sempre próximo das realidades cotidianas de seu tempo.



