Galo Folião Fraterno homenageia Dom Helder Câmara e une carnaval com fé no Recife
Galo Folião Fraterno une carnaval e fé em homenagem a Dom Helder

Galo Folião Fraterno celebra Dom Helder Câmara e mistura carnaval com fé no Recife

A Quarta-feira de Cinzas, frequentemente vista com certa resistência por muitos foliões, marca um momento crucial no calendário cristão, inaugurando o período da Quaresma que culmina na Páscoa. Contrariando a percepção histórica de que o sagrado e o profano são antagônicos, o carnaval pernambucano deste ano demonstra uma profunda interligação entre essas esferas. No centro da capital, a imponente escultura do Galo Folião Fraterno, instalada na Ponte Duarte Coelho, presta uma homenagem vibrante a Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife entre 1964 e 1985, conhecido por defender o "direito à alegria".

A fusão entre fé e folia na visão acadêmica

O doutor em ciência da religião Liniker Xavier argumenta que não há contradição inerente entre ser religioso e participar ativamente do carnaval. "Uma pessoa profundamente religiosa não apenas tem espaço na folia, mas deve ocupá-lo precisamente por causa de sua fé, especialmente quando consideramos a religiosidade popular, que é construída sobre formas coletivas de pertencimento", explica o pesquisador. Esta perspectiva encontra eco na frase "Brinque, meu povo querido!", atribuída a Dom Helder Câmara e inscrita no coração cenográfico que adorna o peito do Galo Gigante, permanecendo em exibição até 21 de fevereiro.

Ritual inédito e simbolismo profundo

Este ano testemunhou uma celebração singular, na qual um coração cenográfico percorreu as ruas do Centro do Recife em um cortejo emocionante, partindo de uma missa de Ação de Graças no histórico Convento de Santo Antônio, erguido no século XVII. Transportado sobre um andor por foliões devotos, a peça foi levada até a escultura mais emblemática do carnaval local. Segundo o artista plástico Leopoldo Nóbrega, responsável pelo design do Galo gigante, a luz que emana do coração da escultura representa a presença de Cristo, simbolizando tanto a conexão com o carnaval quanto o próprio coração de Dom Helder.

Manifestações religiosas diversas na folia

A vendedora Maria Guedes, visitante de Fortaleza, compartilhou sua admiração ao hospedar-se em um estabelecimento vinculado a um convento no Alto da Sé, em Olinda, onde observou freiras participando alegremente do carnaval. "Elas estão na calçada, brincando e vivendo intensamente a festa. O carnaval daqui transborda um sentimento de amor maternal", relata. Paralelamente, religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, constituem elementos fundamentais do carnaval pernambucano, expressando-se poderosamente no maracatu nação, inspirado em antigos ritos de reinos africanos.

Evangelização e debates sobre apropriação cultural

Aproximando-se gradualmente da festividade, setores da religião evangélica, tradicionalmente críticos ao carnaval, têm realizado ações de evangelização nas ruas, gerando discussões acaloradas. Um exemplo é o movimento conjunto da Igreja Anglicana e da Igreja Episcopal Carismática, que atua há aproximadamente duas décadas. O Pastor Dadison justifica: "Vamos para a rua com o propósito de evangelizar. Possuímos o maior tesouro, que é Jesus. Por que não compartilhá-lo com todos?". No entanto, Liniker Xavier alerta para os limites tênues entre a busca por fiéis e a intolerância religiosa ou apropriação cultural indevida.

Reflexões sobre política cultural e cidadania

O pesquisador enfatiza que a discussão sobre religiosidade no carnaval transcende a esfera festiva, envolvendo diretamente políticas culturais e exercício da cidadania. "É imperativo proteger tradições ancestrais, valorizar mestres e comunidades, combater estigmas e intolerância religiosa. Para inúmeras pessoas, o toque do tambor e o corpo em cortejo não são meramente entretenimento, mas modos essenciais de existir, afirmando publicamente sua humanidade e dignidade", conclui Xavier, destacando a dimensão histórica dessas manifestações.