Folia de Reis: Tradição Religiosa e Cultural que Atravessa Gerações em Goiás
Folia de Reis: Tradição que Atravessa Gerações em Goiás

Folia de Reis: Tradição Religiosa e Cultural que Atravessa Gerações em Goiás

A Folia de Reis é uma expressão de fé e cultura que remonta à peregrinação dos três Reis Magos em busca do Menino Jesus, guiada pela Estrela do Oriente. Carregada de tradição, essa celebração começou junto com as primeiras vilas de Goiás e resiste ao crescimento urbano, reunindo foliões e famílias em torno de orações e músicas típicas. Segundo o professor Bento Fleury, as folias tradicionalmente começavam após o Natal e terminavam no dia 6 de janeiro, data dedicada pela Igreja Católica aos Santos Reis.

Origens e Significado da Tradição

Bento Fleury explica que, antigamente, a folia peregrinava pelas ruas, indo de casa em casa, como uma festa do conhecimento das pessoas e das pequenas comunidades. "Essa tradição foi mantida principalmente na zona rural, com o que se chama de giro urbano e giro rural", afirma. Ele destaca que a tradição é mantida com mais força nas áreas rurais devido à raiz caipira, enquanto nas cidades perdeu vigor devido ao crescimento urbano, isolamento social e aumento de evangélicos que não comungam dessa prática católica.

Foliões e a Transmissão da Tradição

O motorista Geferson Cardoso de Jesus, de 47 anos, começou a participar das folias com apenas um ano de vida em Brasília e agora, morando em Goiás, continua a tradição. Este ano, ele organizou os giros da folia em Claudinápolis, no oeste do estado. "Essa tradição começou na minha família há 46 anos, através de um tio de Minas Gerais. Ele fez um voto para Santos Reis e a missão já dura mais de 40 anos", conta Geferson, que é devoto dos Santos Reis e acredita que a tradição não acabará, pois está bem enraizada em sua família e está sendo passada para pessoas mais jovens.

Júlio César Souza Castro, de 23 anos, trabalha no Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade, e há quatro anos organiza uma folia em Itapaci, no norte de Goiás. Seu grupo conta com 50 foliões, muitos deles jovens interessados em manter a tradição viva. "A Folia do Castilho começou na minha família há mais de 70 anos e mantemos as mesmas raízes, com giros apenas na zona rural", explica Júlio César, reforçando que a folia é católica e focada em músicas bíblicas.

Famílias e a Recepção da Folia

A família de Terezinha Naves e Danilo Lobo, de Claudinápolis, recebe o pouso da folia, onde os foliões se reúnem para rezar o terço, entoar cânticos e compartilhar refeições. Terezinha relata que mais de 300 pessoas participam das jantas e cafés da manhã, um momento de grande satisfação e renovação da fé. "Minha mãe era muito devota de Santos Reis, e essa devoção sempre esteve presente. Receber a folia é uma transformação, sinto a presença do Espírito Santo", testemunha.

Estrutura e Elementos da Folia

A Folia de Reis possui uma estrutura organizada com diversos papéis:

  • Embaixadores: Responsáveis por falar os versos e cantar, guiados pelo Espírito Santo.
  • Vozes: Primeira, segunda, terceira, quarta e quinta voz, que respondem afinadamente.
  • Caixeiros e pandeiristas: Tocam tambores e pandeiros, instrumentos essenciais.
  • Palhaços: Usam máscaras e roupas diferentes, guardam a bandeira e animam o público, especialmente as crianças.
  • Foliões de apoio: Ajudam com logística, transporte e suporte necessário.

Desafios e Perspectivas Futuras

Bento Fleury observa que a tradição enfrenta desafios nas áreas urbanas, onde muitas casas não aceitam a bandeira devido a diferenças religiosas. No entanto, em Trindade, há uma igreja dedicada aos Santos Reis, onde giros urbanos e rurais se apresentam. Ele também lamenta o desaparecimento dos 'cantos de presépio', substituídos por árvores de Natal, uma tradição importada. "O presépio é a tradição brasileira, e a árvore combina com climas frios e neve", pontua.

Ambos Geferson e Júlio César veem a tradição como resiliente, com jovens se interessando e assumindo papéis de liderança. "Enquanto eu tiver vida, vamos tocando e tudo vai acontecendo", afirma Júlio César, expressando confiança na continuidade da Folia de Reis como um legado cultural e religioso em Goiás.