Morre aos 85 anos Ideval Anselmo, compositor do samba-enredo 'Narainã' eleito o samba do século
O compositor e cantor Ideval Anselmo, uma das maiores referências históricas do samba-enredo da capital paulista, faleceu nesta quarta-feira (18), em São Paulo, aos 85 anos de idade. Sua morte ocorreu na simbólica Quarta-Feira de Cinzas, data que marca o encerramento do carnaval, universo ao qual dedicou mais de cinco décadas de sua vida e carreira.
Trajetória de um mestre do samba
Nascido em 18 de setembro de 1940 na cidade de Catanduva, interior de São Paulo, Ideval Anselmo passou a infância e adolescência em Votuporanga. Criado em uma família de baixa renda, seu despertar musical aconteceu dentro de casa, onde o avô tocava acordeão, a avó cantava e o pai dominava o cavaquinho. Ainda jovem, frequentou a escola de música da prefeitura local e, mesmo com um trompete de segunda mão e de difícil afinação, persistiu nos estudos musicais que moldariam seu futuro.
Na década de 1960, mudou-se para a capital paulista, onde trabalhou como torneiro mecânico. No ambiente da fábrica, utilizava o batuque das máquinas de torno e fresa como métrica para criar seus primeiros versos, muitas vezes transformando situações do cotidiano em paródias bem-humoradas. Seu contato mais próximo com o carnaval começou ao acompanhar os antigos cordões paulistanos.
Entrada triunfal no carnaval
A entrada definitiva no mundo das escolas de samba ocorreu em 1971, quando passou a integrar a tradicional Camisa Verde e Branco, motivado pela curiosidade de entender a construção dos desfiles. Em 1972, logo em sua primeira disputa na ala de compositores, teve o samba "Literatura de Cordel" escolhido para representar a escola na avenida. O sucesso marcou o início de uma trajetória que ajudaria a transformar o antigo cordão em uma das potências do carnaval paulistano.
Ao lado de parceiros como Zelão e Miro, Ideval formou uma tríade de compositores que marcou época no Camisa Verde e Branco. Em 1974, conquistou seu primeiro título com o enredo "Nega Fulô". A união criativa também resultou em um tricampeonato em 1976 e consolidou seu estilo, caracterizado por refrões simples, melodiosos e de forte apelo popular.
Obras que entraram para a história
Em 1977, a parceria criou "Narainã, a Alvorada dos Pássaros", samba-enredo da Camisa Verde e Branco que seria eleito o "samba do século" pela Folha de S.Paulo e apontado por muitos especialistas como o maior da história do carnaval paulistano. Já sozinho em 1979, Ideval escreveu, em um papel de pão, o samba "Almôndegas de Ouro", que acabaria vencedor daquele carnaval.
Na década de 1980, expandiu sua atuação para outras agremiações:
- Colaborou com a fundação da escola Tom Maior
- Conquistou o bicampeonato na Rosas de Ouro em 1984
- Na Unidos do Peruche, compôs hinos marcantes como "Água Cristalina" e "Os Sete Tronos dos Divinos Orixás" (1989)
Esta última obra é especialmente reconhecida por sua força ao transpor a religiosidade e a herança africana para o samba-enredo. Suas composições também foram interpretadas por grandes nomes do samba, incluindo Jamelão, Eliana de Lima, Thobias da Vai-Vai, Fabiana Cozza e Denise Camargo, entre outros intérpretes consagrados.
Legado e reconhecimento
Com mais de 25 sambas de enredo assinados ao longo da carreira, Ideval Anselmo passou a ser reconhecido como um "Griô" — guardião da memória e das tradições do samba paulistano. Integrante da Embaixada do Samba Paulistano desde 2005, lançou em 2012 seu primeiro álbum autoral, reunindo sambas-enredo, o ijexá "Tesouro Africano" e composições no estilo gafieira.
Mesmo após deixar de desfilar, manteve-se ativo na defesa de um carnaval mais popular, irreverente e fiel às raízes comunitárias das escolas de samba. Seu velório será realizado no cemitério Vila Nova Cachoeirinha, nesta quinta-feira (19), das 8h30 às 12h30, onde familiares, amigos e admiradores poderão prestar suas últimas homenagens ao mestre do samba-enredo paulistano.