Joyce Moreno revive clássico 'Passarinho urbano' em apresentações especiais na capital paulista
A renomada cantora e compositora Joyce Moreno está preparando duas apresentações únicas para celebrar os 50 anos do álbum 'Passarinho urbano'. Os shows acontecerão nos dias 20 e 21 de fevereiro no Sesc Belenzinho, em São Paulo, trazendo de volta ao palco um repertório que se tornou objeto de culto ao longo das décadas.
Um disco histórico que resistiu ao tempo
Lançado originalmente em 1976, 'Passarinho urbano' representa um marco na carreira de Joyce Moreno. Gravado em 1975 nos estúdios de Roma, na Itália, sob produção de Sergio Bardotti, este trabalho se destaca por apresentar a artista em um papel diferente: pela primeira vez como intérprete, dando voz a compositores brasileiros que enfrentavam a censura durante o período da ditadura militar.
O álbum, que inicialmente chegou ao Brasil de forma discreta, sem grandes divulgações ou shows de lançamento, foi ganhando reconhecimento gradualmente. Com o passar dos anos, transformou-se em um artigo raro e valioso para colecionadores e amantes da música brasileira, especialmente pelo seu conteúdo político e corajoso.
Repertório que homenageia a resistência artística
No disco, Joyce Moreno interpreta canções de alguns dos maiores nomes da música brasileira da época, incluindo:
- Caetano Veloso com "Joia"
- Chico Buarque e Ruy Guerra com "Fado tropical"
- João Bosco & Aldir Blanc com "De frente pro crime"
- Zé Ketti com "Opinião"
- Carlos Lyra e Vinicius de Moraes com "Marcha da quarta-feira de cinzas"
Estas composições, muitas delas criadas durante um dos períodos mais difíceis da história recente do Brasil, representam a resistência artística frente à truculência do regime militar que dominava o país desde 1964.
De apresentação única a celebração permanente
Os shows atuais têm origem em uma apresentação concebida inicialmente para ser única, realizada em 2019. Na época, como explica a própria artista: "Era para ser apenas uma apresentação, quase que um desabafo". No entanto, o interesse do público e a revalorização contínua do álbum fizeram com que o projeto ganhasse vida própria.
Joyce Moreno revela: "'Passarinho urbano' chegou meio tímido no Brasil, sem show, sem muito se falar sobre ele, mas, com o tempo, o interesse foi crescendo tanto aqui quanto no exterior. Em 2019, o assunto estava latente por aqui e tive vontade de pegar meu violão, subir em um palco, e lembrar a produção artística genial de tempos duros que não devem voltar jamais".
Trajetória de uma artista fundamental
Revelada em 1964, Joyce Moreno construiu uma carreira sólida como compositora, com obras marcadas pelo suingue do samba-jazz, o balanço da bossa nova e uma feminilidade profunda que influenciou grandes cantoras como Elis Regina e Maria Bethânia. Contudo, foram necessários 15 anos para que consolidasse sua carreira fonográfica, com o sucesso chegando de forma mais ampla a partir de 1979.
Antes disso, a artista carioca produziu discos que, apesar de recebidos com moderação inicialmente no Brasil, transformaram-se com o tempo em obras cultuadas por gerações de ouvintes. 'Passarinho urbano' ocupa um lugar especial nesse percurso, representando tanto um desvio criativo quanto um ato de coragem artística.
Celebração de cinco décadas de resistência musical
As apresentações de fevereiro no Sesc Belenzinho assumem agora um caráter festivo. Como destaca Joyce Moreno: "Agora, nessas duas apresentações em São Paulo, o motivo é de festa. Vamos comemorar e lembrar os 50 anos de lançamento desse álbum".
O álbum foi gravado na Itália após a artista completar uma turnê pela Europa ao lado de Vinicius de Moraes, aproveitando a distância geográfica para registrar canções de amigos que sofriam com a censura no Brasil. Cinco décadas depois, essas mesmas músicas retornam aos palcos não como lembranças de um passado difícil, mas como testemunhos da força criativa brasileira que superou adversidades históricas.
