Papa Leão 14 alerta sobre riscos da IA em sua primeira encíclica
Papa Leão 14 alerta sobre riscos da IA em encíclica

O papa Leão 14 publicou sua primeira encíclica, intitulada Magnifica humanitas (humanidade magnífica, em latim), nesta segunda-feira (25), no Vaticano. O documento de 245 parágrafos é dedicado à inteligência artificial (IA) e alerta para seus riscos sobre o trabalho, novas formas de escravidão, guerras, desinformação e dependência digital.

Principais alertas do pontífice

O pontífice pediu que os católicos permaneçam "fiéis à verdade", invistam em educação digital, cuidem das relações com "presença física" e priorizem a justiça e a paz. Da comunidade internacional, cobrou "quadros jurídicos adequados" e "vigilância independente". Além disso, instigou a classe política a agir para "reduzir a velocidade onde tudo se acelera".

Desarmar a IA

"Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também econômica e cognitiva", escreveu Leão 14. "[Desarmar] não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano. Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável."

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Impactos no trabalho e novas escravidões

O papa destacou o mercado de trabalho como uma das áreas mais expostas. "É desejável que a tecnologia alivie o homem de trabalhos pesados, repetitivos ou perigosos", afirmou. "Porém, o princípio geral deve continuar a ser a proteção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa. O objetivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego."

Ao citar "novas formas de escravidão", o documento aponta que parte significativa da economia digital é baseada no "trabalho silencioso" de pessoas que realizam atividades como "etiquetagem de dados, moderação de conteúdos e treino de modelos". Em muitos casos, "são jovens, majoritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remuneração mínima". "Os corpos dessas pessoas ficam marcados, feridos e desgastados para que o fluxo computacional possa continuar ininterruptamente", diz o texto.

Pedido de perdão histórico

O papa também reconheceu que a Igreja Católica não condenou veementemente a escravidão transatlântica até o século 19 e fez um pedido de desculpas pessoal. "Isso constitui uma ferida na memória cristã", escreveu. "Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão."

IA e conflitos

Sobre o uso da IA em guerras, Leão 14 afirmou que ela atua como fator de aceleração. "A guerra visível é acompanhada por formas híbridas: ataques cibernéticos, manipulação da informação, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas", escreveu. O risco é que a técnica, "dissociada da ética e da responsabilidade", torne mais rápida e impessoal "a decisão sobre a vida e a morte".

A paz é um tema central deste pontificado e, nas últimas semanas, motivou atritos com o presidente dos EUA, Donald Trump, e seu vice, J. D. Vance. "A guerra não é só combatida, mas também preparada culturalmente através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo", diz o papa. "Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da 'guerra justa', invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra."

Colonialismo digital

Leão 14 alertou para um colonialismo de "rosto inédito" em novas "terras raras do poder". "Inteiros territórios, sobretudo aqueles com menor relevância geopolítica e maior fragilidade estrutural, são atualmente atravessados por uma nova lógica de extração: a dos fluxos sanitários, perfis epidemiológicos, mapas genéticos e dados demográficos." Tudo para "desenvolver modelos preditivos, orientar estratégias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, selecionar quem e o que importa".

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Desinformação e comunicação

O documento enfatiza os impactos da IA na comunicação, setor em que age como "poderoso multiplicador" de desinformação. "Ferramentas que poderiam favorecer o debate e a participação são frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o falso", afirma. Para ele, "só a busca partilhada da verdade factual, assumida como bem comum, pode dar origem a uma correta comunicação". E destaca o papel do jornalismo, promovendo uma "ecologia da comunicação" que implica "o reforço dos organismos intermédios, um jornalismo sério e espaços de debate onde prevaleçam a argumentação e a averiguação, em vez da reação impulsiva".

Educação e presença física

Nas conclusões, o papa pede que os fiéis cuidem das relações presenciais. "O coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres." E defende a educação para a vida digital, ajudando os mais jovens a reconhecer riscos. "Educar as novas gerações para acreditarem que a evolução das tecnologias não segue um percurso inevitável, mas que pode ser orientada pela responsabilidade pessoal e coletiva", diz o documento.

Apresentação histórica

Nesta segunda, o papa rompeu com a tradição do Vaticano e participou pessoalmente da apresentação da encíclica, na sala do Sínodo. Falando em inglês, ele disse que a Igreja era chamada, em momentos importantes da história, a decifrar "coisas novas" à luz do Evangelho e da dignidade humana. Há 135 anos, Leão 13 escreveu a encíclica Rerum novarum, defendendo melhores condições para trabalhadores na Revolução Industrial. "Hoje, enfrentamos uma transformação de magnitude parecida, com consequências talvez até maiores", afirmou o papa.

Além de cardeais, estava presente Christopher Olah, cofundador da Anthropic (EUA), dona do chatbot Claude. Em seu discurso, Olah afirmou que existe "uma possibilidade real" de a IA substituir o trabalho humano "em larga escala". "Se isso acontecer, apoiar aqueles que forem substituídos será um imperativo moral de proporções históricas", disse. Ele também saudou o engajamento da Igreja com a tecnologia e destacou três áreas urgentes: risco de perdas generalizadas de empregos, necessidade de garantir que os benefícios da IA sejam globais e a interpretação de sistemas cada vez mais complexos.

O tema da IA vinha sendo frequente nos discursos de Leão 14. Durante viagem à África, em abril, afirmou que a tecnologia poderia alimentar "conflitos, medo e violência". Na última sexta (22), disse que "experimentamos um eclipse do sentido do que significa ser humano". Dias antes, aprovou a criação da Comissão Interdicasterial sobre a IA. O tema ganhou atenção do Vaticano ainda sob Francisco, que em 2020 lançou o Apelo de Roma pela Ética na IA e, em 2024, foi o primeiro pontífice a participar de uma reunião do G7, discursando sobre a necessidade de supervisão rigorosa da IA para preservar a vida e a dignidade humana.