Edécio Lopes: a voz do frevo que eternizou o Carnaval de Maceió
Quando o assunto é Carnaval em Alagoas, um nome ressoa com força e emoção: Edécio Lopes. Radialista, compositor e apaixonado pelo frevo, ele não apenas narrou a folia maceioense, mas a transformou com sua voz marcante e seu talento inigualável. Sua trajetória, repleta de desafios e conquistas, se confunde com a própria história cultural da capital alagoana, deixando um legado que permanece vivo e inspirador.
De Pernambuco para Alagoas: uma jornada de descobertas
Nascido em Glória do Goitá, Pernambuco, Edécio Lopes começou a trabalhar ainda jovem, desempenhando funções diversas como cobrador de ônibus e operário em obras. Foi apenas ao fazer um teste em uma emissora de rádio em Maceió que encontrou seu verdadeiro chamado. Aprovado, ele se estabeleceu na capital alagoana, onde construiu família, casou-se e viveu por cinco décadas ao lado da esposa.
Em Alagoas, Edécio se apaixonou definitivamente pelo Carnaval local, eternizando esse sentimento na música "Cidade Sorriso", um frevo que se tornou um dos símbolos da folia maceioense. Na composição, ele traduziu em versos o amor pela cidade e a paisagem que admirava do mirante, capturando o encanto único de Maceió.
A luta antes da consagração: esforço e dedicação
A trajetória de Edécio até o reconhecimento foi marcada por muito esforço e perseverança. Seu filho, Dinho Lopes, relembra com orgulho a dedicação do pai. "É muito orgulho, muita alegria por todo aprendizado, pelo legado, por tudo que ele deixou para nós, não só na vida pessoal, mas também na vida profissional. Para nós é motivo de prazer e alegria", afirmou em entrevista à TV Asa Branca Alagoas.
Dinho destacou a batalha diária de Edécio: "Ele foi cobrador de ônibus, trabalhou com obras, era um batalhador. Eu vi essa luta dele para não faltar nada em casa. Trabalhou em várias profissões, mas se encontrou no rádio." Mesmo diante de dificuldades pessoais, Edécio mantinha um profissionalismo exemplar. No microfone, ele esquecia todos os problemas e se transformava, transmitindo paixão e energia aos ouvintes.
50 anos dedicados ao frevo: um programa que virou tradição
Durante meio século no ar, Edécio Lopes comandou um programa de rádio que se tornou tradição em Alagoas. Do dia 1º de janeiro até a Quarta-feira de Cinzas, a programação era dedicada exclusivamente ao frevo, cativando gerações. "Desde que eu me entendo por gente, a gente aprendeu a gostar de Carnaval por causa dele", conta Dinho.
Apesar de ter estudado apenas até o quarto ano primário, Edécio era um autodidata talentoso. Compunha frevos, inclusive instrumentais, sem dominar partituras, demonstrando um dom natural para a música. Colecionador de discos, mantinha uma discoteca extensa, e artistas que visitavam Maceió faziam questão de participar de seu programa, deixando discos autografados que hoje compõem um acervo precioso.
Em 1978, ele realizou o Festival do Frevo em Maceió, trazendo nomes consagrados do Carnaval do Recife e revelando compositores alagoanos. Também foi um dos fundadores do bloco Pinto da Madrugada e esteve à frente de diversos eventos carnavalescos, consolidando sua influência na cena cultural.
Um legado que segue vivo: homenagens e preservação
O reconhecimento ao trabalho de Edécio Lopes ultrapassa o período do Carnaval. O Museu da Imagem e do Som de Alagoas, no bairro de Jaraguá, abriga o Espaço Edécio Lopes, onde parte de seu acervo pessoal está exposto ao público. Visitantes encontram itens pessoais, diplomas, a discoteca, registros da trajetória e o tradicional boneco que desfila durante o Carnaval.
Escolas e universidades realizam visitas guiadas ao espaço, que também promove palestras e encontros com radialistas da época. Há 15 anos, familiares mantêm uma programação carnavalesca em homenagem ao radialista, com o objetivo de preservar a memória e apresentar às novas gerações a história de quem ajudou a construir a identidade do Carnaval de Maceió.
Com voz leve, presença marcante e paixão declarada pelo frevo, Edécio Lopes deixou mais do que músicas e programas de rádio. Ele deixou uma marca permanente na cultura alagoana, inspirando futuras gerações a celebrar e valorizar as tradições carnavalescas com a mesma dedicação e amor que ele demonstrou ao longo de sua vida.
