Na Passarela do Samba, o tempo frequentemente segue um ritmo peculiar para as rainhas de bateria. Muitas surgem, brilham intensamente durante um único carnaval e depois desaparecem na curva seguinte do desfile. No entanto, Viviane Araújo desafiou essa lógica de forma extraordinária. Ao completar a chamada "maioridade" à frente da bateria do Salgueiro, ela transformou o posto de rainha em uma trajetória duradoura, o brilho efêmero em permanência sólida e suas fantasias em referências icônicas da Sapucaí.
Uma trajetória de 18 anos de reinado
Este ano, Viviane Araújo realizará seu 18º desfile consecutivo à frente da Furiosa, coroando uma história que teve início em 2008. No carnaval do Rio de Janeiro, ela é a mulher que permanece há mais tempo no posto de rainha de bateria, o que lhe rendeu o título carinhoso de "Rainha das Rainhas". Sua exuberância continua impressionante, mantendo uma forma física admirável que parece inalterada desde seus 32 anos até os atuais 50 anos.
O frio na barriga ao pisar na Avenida também não diminuiu com o passar dos anos. Viviane confessa que "ainda fica nervosa" antes de cada apresentação, mas reforça que seu objetivo principal sempre foi "brincar e ser feliz" durante os desfiles. Essa filosofia descontraída combinada com profissionalismo explica parte de sua longevidade no posto.
Maternidade como manifesto na avenida
Em 2022, Viviane atravessou a Marquês de Sapucaí grávida de seu primeiro filho, transformando a experiência da maternidade em parte integrante do desfile e usando seu corpo como um verdadeiro manifesto. Este não foi apenas um momento pessoal profundamente significativo, mas também um marco simbólico importante: a rainha que sempre representou vigor e sensualidade passou a representar igualmente continuidade, ciclos de vida e transformação pessoal.
Desfilar com seu filho Joaquim ainda no ventre teve um significado especial que ela descreveu como "um dia de muita emoção", exibindo sua barriguinha com orgulho durante a apresentação. Este episódio destacou como Viviane conseguiu expandir o significado tradicional do papel de rainha de bateria.
Transformação em ícone permanente
Durante a pandemia de Covid-19 em 2021, quando a Sapucaí ficou silenciosa sem desfiles, baterias ou coroas, Viviane consolidou sua transição de convidada esporádica do espetáculo para parte fundamental da engrenagem carnavalesca. Ela se tornou uma presença aclamada e indispensável na Marquês de Sapucaí, superando as interrupções forçadas pelo contexto sanitário.
À medida que o carnaval carioca se transformava em um cenário cada vez mais midiático, disputado e veloz, Viviane também evoluiu, tornando-se uma rainha com legiões de admiradores. Ela se transformou em referência e inspiração para outras mulheres, atravessando gerações de rainhas estreantes e passando do espelho da comparação ao posto de parâmetro estabelecido.
Mais que beleza: uma narrativa em movimento
Seu reinado nunca se limitou à beleza física ou à habilidade no samba, mas sempre envolveu uma compreensão profunda do lugar que ocupava e das adaptações necessárias para nele permanecer. Quando pisa na pista atualmente, praticamente não há uma única pessoa na plateia que não aplauda sua performance com entusiasmo.
O corpo que atravessa a Marquês de Sapucaí carrega, além das tradicionais plumas e pedrarias, uma narrativa rica e complexa. Ao longo dos anos, Viviane já incorporou personagens diversos como Cabocla Jurema, carcará, "Rainha do Bope", malandra, gladiadora, Borboleta de Oyá, cigana e até a lendária Medusa da mitologia grega.
Lenda viva do carnaval
Após tantos carnavais consecutivos, Viviane Araújo tatuou sua imagem icônica diante da bateria Furiosa na memória coletiva dos foliões. Se sua trajetória artística fosse transformada em um enredo de escola de samba, certamente narraria a história de uma majestade eternizada no trono do carnaval carioca.
Hoje, tornou-se mais difícil discernir se ela se reconhece nas jovens rainhas que chegam à avenida ou se são elas que se veem refletidas nela. Essa relação dialética com as novas gerações apenas reforça seu status como figura paradigmática no universo das rainhas de bateria.
Sua evolução desde 2008 demonstra não apenas resistência física, mas também uma capacidade notável de reinvenção constante, mantendo-se relevante e vibrante em um ambiente competitivo que frequentemente privilegia a novidade. Viviane Araújo provou que, no carnaval, a verdadeira majestade não se conquista apenas com um desfile excepcional, mas com uma trajetória consistente que atravessa décadas.