PT tentou barrar homenagem a tucanos em desfile de Carnaval em 2006
Duas décadas antes de a Acadêmicos de Niterói entrar na Sapucaí com um enredo em homenagem ao presidente Lula (PT), o próprio Partido dos Trabalhadores ingressou na Justiça para tentar impedir um desfile em São Paulo que prestaria tributo a pré-candidatos do PSDB à Presidência da República. A ação judicial movida em 2006 apresenta semelhanças com a contestação recente feita por partidos de oposição no Tribunal Superior Eleitoral, que prometem novas medidas para questionar a legalidade do desfile carioca.
Ação popular buscava liminar contra escola de samba
Em fevereiro de 2006, o então líder da bancada dos vereadores do PT em São Paulo, Arselino Tatto, apresentou ao Tribunal de Justiça de São Paulo uma ação popular com pedido de liminar. O objetivo era impedir que a escola de samba Leandro de Itaquera, da zona leste da capital paulista, desfilasse com um carro alegórico que homenagearia o atual vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) – que na época era governador de São Paulo pelo PSDB – e o tucano José Serra, então prefeito da cidade. Ambos eram possíveis candidatos do PSDB à presidência nas eleições daquele ano.
Bonecos gigantes dos dois políticos integrariam um dos carros da agremiação, cujo presidente, Leandro Alves Martins, já havia sido candidato derrotado do PSDB a vereador em 2004. O enredo abordaria uma das principais vitrines eleitorais de Alckmin: as obras de rebaixamento da calha do rio Tietê. Embora o rio já tivesse sido tema da Leandro de Itaquera nos anos 1990, a escola resolveu fazer uma repetição com "roupagem" diferenciada.
Juíza nega pedido e cita liberdade de expressão artística
Na ação judicial, Tatto alegou que a homenagem configuraria "promoção pessoal de políticos e autoridades". No entanto, o pedido de liminar foi negado pela juíza Márcia Cardoso, da 11ª Vara da Fazenda Pública. A magistrada argumentou que a alegação estava amparada em presunções e não poderia "se sobrepor ao princípio de liberdade de expressão artística".
No dia do desfile, os bonecos gigantes de Alckmin e Serra vieram logo atrás de um carro que representava a parada do orgulho gay. A Leandro de Itaquera foi rebaixada naquele ano, mas o episódio continuou gerando polêmicas. Meses depois, o PT voltou a questionar o desfile após revelação de que o banco estadual Nossa Caixa havia pago R$ 1,5 milhão à Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo como patrocínio – valor superior aos R$ 1,2 milhão investidos na campanha publicitária para divulgar os resultados do banco em 2005.
Ex-vereador defende diferenças entre os casos
Cem funcionários da Nossa Caixa teriam desfilado no Carnaval com fantasias doadas pela Leandro de Itaquera, ajudando a engrossar o coro do samba-enredo sobre as obras do rio Tietê realizadas por Alckmin. Procurado pela reportagem, o ex-vereador Arselino Tatto afirmou que as situações de 2006 e deste ano são diferentes. Segundo ele, no caso da Leandro de Itaquera ocorreu o envolvimento direto de tucanos nas escolhas da escola de samba, enquanto no caso da Acadêmicos de Niterói não houve qualquer interferência do governo federal ou de Lula nas decisões da agremiação.
"O Lula procurou a CGU [Controladoria-Geral da União], foi perguntar, se informou direitinho. O partido estava discutindo os prós e contras, e a partir do momento em que tivemos uma garantia jurídica de que estava tudo bem, ok, e foi bonito", disse Tatto, destacando as distinções entre os dois episódios que separam duas décadas de história carnavalesca e política brasileira.



