Terezinha Tadeu: a pioneira que transformou o Carnaval de Santos
Antônia Terezinha dos Santos, mais conhecida como Terezinha Tadeu, entrou para a história do Carnaval de Santos, no litoral paulista, ao se tornar a primeira mulher negra eleita rainha da festa em 1967. Este marco rompeu um ciclo de quase vinte anos de reinados exclusivamente brancos, inaugurando uma nova era de representatividade na corte carnavalesca da cidade.
Uma artista completa além do samba
Conforme relata o historiador Sergio Willians ao g1, Terezinha Tadeu era uma mulher multifacetada: atriz, cantora e artista plástica. Curiosamente, ela nunca havia sambado ou desfilado por qualquer agremiação carnavalesca antes de sua coroação. Com pouco mais de vinte anos, foi indicada para concorrer à Corte Carnavalesca de Santos por uma figura emblemática: Dráuzio da Cruz, cujo nome hoje batiza o sambódromo da cidade.
Dráuzio da Cruz foi fundador e presidente da Império do Samba, uma das escolas de samba mais importantes da região, posteriormente extinta em 1988. A ligação entre os dois surgiu fora do universo carnavalesco: Dráuzio assistiu à peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, encenada por alunos do Teatro da Faculdade de Filosofia (TEFFI), e ficou profundamente impressionado com o talento cênico de Terezinha.
Inicialmente, Dráuzio a convidou para representar a agremiação no concurso Miss Samba, mas Terezinha recusou. O persistente presidente não desistiu e a incentivou a disputar o título de Rainha do Carnaval. "Apostando conscientemente que ela faria história, o que se confirmou", destacou Willians.
A coroação que fez história
A Corte Carnavalesca de Santos teve início em 1949, e Terezinha venceu o concurso em 1966, sendo coroada rainha para o Carnaval de 1967. Na época, o Jornal A Tribuna noticiou sua vitória com 84 pontos, uma diferença expressiva em relação às concorrentes: Sônia Maria Roque e Maria da Graça Silva ficaram em segundo e terceiro lugares, com 41 e 40 pontos respectivamente.
O mesmo jornal, em edição de janeiro de 1967, descreveu a nova soberana: "A Rainha do Carnaval de 1967 é a moreníssima Terezinha Tadeu, que todos têm admirado e aplaudido em seus aparecimentos em público ao lado de Valdemar Estêves da Cunha, o nosso veteraníssimo Rei Momo, que é exímia sambista, pertence ao grupo teatral do Teatro Escola da Faculdade de Filosofia (TEFFI), é solteirinha da 'Silva', torce pelo Santos e admira o Rei Pelé".
Significado social e simbólico
Willians enfatiza a importância histórica e simbólica de Terezinha Tadeu: "Foi uma figura histórica e simbólica: sua coroação representou um avanço social e racial, ampliando o imaginário da festa e abrindo espaço para uma corte mais representativa da população brasileira".
O historiador acrescenta que o momento de sua eleição dialoga com um movimento maior de afirmação cultural negra nos anos 1960, "ao ocupar um posto de grande visibilidade num período ainda marcado por forte exclusão racial e social".
Legado e sucessão
Após o término de seu reinado, Terezinha não manteve vínculos com o Carnaval, optando por dedicar-se integralmente ao teatro, à música e às artes plásticas. Ela faleceu em 2001, com pouco mais de sessenta anos.
Um aspecto significativo destacado pelo historiador é que sua sucessora direta também foi uma mulher negra, Regina Helena Santana. "O que indica que a ruptura promovida por Terezinha não foi isolada", finalizou Willians, sublinhando o caráter transformador de sua conquista.
A trajetória de Terezinha Tadeu permanece como um marco na luta por representatividade e igualdade racial no Carnaval brasileiro, lembrando que festas populares também são espaços de transformação social e cultural.
