Poços de Caldas conquistou a Sapucaí em 2006 com enredo da Beija-Flor sobre águas milagrosas
Há duas décadas, a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais, entrou para a história do carnaval brasileiro ao se tornar tema do samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis. Em 2006, as águas sulfurosas e ricas da localidade desfilaram na maior passarela do samba, a Sapucaí, projetando o município em escala internacional através de uma estratégia de divulgação turística visionária.
Estratégia de divulgação articulada por vereador
O vereador Marcos Togni, então presidente da Câmara Municipal e desfilante assíduo da Beija-Flor, foi o principal articulador da ideia. Ele sugeriu ao presidente da escola, Farid Abraão David, usar Poços de Caldas como símbolo da preservação das águas, visando uma vitrine mundial. “Eu tive a ideia e sugeri ao presidente da escola. A proposta era usar a cidade como símbolo de preservação das águas”, relembra Togni.
O projeto foi aprovado pelo então prefeito Sebastião Navarro e pela Câmara Municipal, com a avaliação de que a exposição durante o desfile – transmitido para todo o Brasil e diversos países – compensaria o investimento. Durante cerca de um mês antes do carnaval, a vinheta da escola com o nome da cidade foi exibida na televisão, seguida pelo desfile de mais de uma hora que alcançou audiência global.
Enredo celebrava águas desde a origem da vida
O samba-enredo, intitulado “Poços de Caldas Derrama Sobre a Terra Suas Águas Milagrosas: Do Caos Inicial À Explosão da Vida, a Nave Mãe da Existência”, abordava a água desde a gênese da vida até o futuro da humanidade, usando a cidade como referência pelas suas fontes sulfurosas. Para compor a história, integrantes da Beija-Flor visitaram Poços de Caldas, recolheram livros, relatos e adaptaram lendas locais ao espetáculo.
O processo de criação levou quase um ano, envolvendo reuniões com empresários, sindicatos do setor turístico e apresentações públicas do samba na cidade. Membros da escola também se apresentaram em eventos locais antes do carnaval, fortalecendo o vínculo com a comunidade.
Envolvimento massivo da população local
O município confeccionou aproximadamente 200 fantasias para duas alas formadas exclusivamente por moradores: a do café e a dos duendes. Outros poços-caldenses participaram em carros alegóricos e no apoio logístico. Além disso, centenas de pessoas viajaram apenas para assistir ao desfile, com estimativas de mais de mil moradores presentes no Rio de Janeiro.
Após o carnaval, a prefeitura realizou levantamentos que indicaram um crescimento expressivo no fluxo turístico. “O percentual de turistas cariocas saiu de cerca de 3% para quase um terço. Vieram também estrangeiros interessados nas águas”, afirma Togni. Nos meses seguintes, emissoras de televisão e visitantes estrangeiros procuraram a cidade motivados pela repercussão do desfile.
Legado histórico e turístico confirmado
Para Togni, a experiência confirmou o poder do desfile da Sapucaí como ferramenta de divulgação eficaz. “A Sapucaí é uma vitrine mundial. O nome da cidade cantado ali todos os dias antes do carnaval e depois no desfile trouxe retorno histórico e turístico”, destaca. O samba-enredo, composto por Alexandre Moraes, Noel Costa, Silvio Romai e Wilsinho Paz, celebrou a cidade com versos como “Poços de Caldas tu és Minas Gerais, Derrama sobre a terra suas águas milagrosas”, deixando um marco duradouro na cultura carnavalesca e no desenvolvimento local.
