Música no Carnaval: Mulheres Superam Luto e Traumas em Bateria de Campinas
Em Campinas, no interior de São Paulo, um grupo diversificado se reúne todas as quartas-feiras para ensaios que vão muito além da prática musical. Na Bateria Campineira, integrantes encontram um espaço terapêutico para superar desafios pessoais, como luto e traumas, através da música e da convivência coletiva. Histórias de transformação mostram como o ato de tocar instrumentos se tornou uma ferramenta poderosa de ressignificação e recuperação da autoestima.
Terapia Musical: Leila Encontra Força Após Perda do Marido
Leila Medeiros, empresária de 53 anos, chegou à bateria após enfrentar o luto pela morte do marido durante a pandemia de covid-19. Em 2021, ela perdeu o companheiro após cerca de um mês de internação, enquanto também lutava contra a doença e cuidava dos dois filhos à distância. "Eu me tranquei no quarto e os meus meninos se viravam dentro de casa... quando eles dormiam, eu descia, desinfetava tudo, deixava comida pronta", relata Leila, descrevendo um período de isolamento e dor que durou quatro anos.
A virada começou com um convite de uma amiga para conhecer a bateria. Em 2025, ao segurar um tamborim pela primeira vez, Leila sentiu uma mudança imediata. "A quarta-feira virou a minha terapia... foi um divisor de águas. Tinha a Leila antes da bateria e depois da bateria", afirma. Sem experiência prévia, ela aprendeu do zero e descobriu uma nova capacidade em si mesma, destacando que o grupo acolhe pessoas de todas as idades, desarmando medos e incentivando novos começos.
Autoestima Restaurada: Kátia Redescobre Confiança
Kátia Regina Cardoso da Silva, estudante de psicologia de 48 anos, sempre admirou escolas de samba de longe, mas foi ao chorar de emoção ao ver uma apresentação da bateria que decidiu tentar. No primeiro ensaio, o mestre identificou sua habilidade natural com o surdo, um momento que ela descreve como precioso. "Parecia uma joia pra mim, porque alguém acreditou em mim", conta Kátia, que carregava traumas da infância e juventude que minaram sua autoestima.
Na bateria, ela encontrou acolhimento em um ambiente de dedicação, com professores pacientes e suporte dos colegas. "Não é só tocar um instrumento: é tocar a alma. Quando eu toco, a minha alma grita, canta, sorri", afirma. Para Kátia, a experiência representa amor e harmonia, confirmando que há lugar para todos, independentemente de suas histórias passadas.
Família Unida: Renata e Filha Encontram Alegria
A publicitária Renata Gregório descobriu a bateria em um evento em um shopping de Campinas e ficou encantada com a energia do grupo. Após um período difícil na carreira, marcado por desencontros e injustiças, ela decidiu participar com o marido e a filha, Ana Luísa, de 12 anos, transformando os ensaios semanais em um compromisso familiar. "Tem um momento da vida que você fala: eu preciso fazer alguma coisa pra mim. A música me transformou", relata Renata.
Para Ana Luísa, antes tímida, os ensaios se tornaram um momento de união e superação. "Antes cada um ficava no seu quarto. Agora a gente vem pra ensaiar e fica todo mundo junto", diz a menina, que perdeu a vergonha e ganhou confiança ao tocar agogô. Ela testou vários instrumentos até se encontrar no agogô, aproveitando uma afinidade natural desenvolvida em casa com berimbau e pandeiro.
Impacto Coletivo: Música Como Caminho de Cura
As histórias de Leila, Kátia e Renata ilustram como a Bateria Campineira serve como um espaço de transformação pessoal e coletiva. Os ensaios não apenas ensinam ritmos e melodias, mas também promovem conexões humanas profundas, ajudando os integrantes a lidar com emoções difíceis e a reconstruir suas vidas. A música, nesse contexto, vai além do entretenimento; torna-se uma ferramenta vital de resiliência e esperança.
Em cada quarta-feira, o som dos tambores em Campinas ecoa não apenas como preparação para o Carnaval, mas como um testemunho do poder curativo da arte. Para essas mulheres, tocar virou um jeito de seguir em frente, provando que, independentemente da idade ou das circunstâncias, sempre é tempo de recomeçar e descobrir novas capacidades.



