Leilão de terreno coloca futuro da Feira de São Cristóvão em risco no Rio de Janeiro
O Centro de Tradições Nordestinas, popularmente conhecido como Feira de São Cristóvão, enfrenta um cenário de incerteza com um leilão de seu terreno marcado para o primeiro trimestre de 2026. A medida judicial foi determinada pela Justiça do Trabalho devido a dívidas trabalhistas acumuladas pela Riotur, proprietária do imóvel, com a União. No entanto, o Governo Federal, que moveu a ação que motivou o leilão, afirma estar em busca de uma solução alternativa para o espaço.
Diálogos em andamento para evitar a venda do pavilhão
Em nota oficial, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional destacou que mantém um diálogo constante com o município do Rio de Janeiro e com a Riotur. O objetivo declarado é garantir o cumprimento das obrigações judiciais e, simultaneamente, preservar o funcionamento do Centro de Tradições Nordestinas, reconhecendo sua relevância cultural e econômica para a cidade e para os trabalhadores locais. A prefeitura do Rio, por sua vez, emitiu um comunicado afirmando que está trabalhando para impedir o leilão e que não medirá esforços para manter o Pavilhão de São Cristóvão como um imóvel público.
Preocupação entre administradores e frequentadores da feira
O diretor do Centro de Tradições Nordestinas, Magno Pereira, expressou profunda preocupação com a situação. Levamos um susto. Desde então, não temos dormido. A gente tem pensado no que vai fazer. Espero que a prefeitura tome uma posição, resolva essa situação por lá para não tirar a nossa casa, declarou. Ele enfatizou que a comissão que administra o espaço entrou com um embargo na Justiça para tentar bloquear o leilão, e fez um apelo emocionado: A gente não tem para onde ir. Onde seria a feira de São Cristóvão? Se não for em São Cristóvão, perde o brilho, perde a essência.
História e importância cultural do pavilhão
O pavilhão onde a feira funciona possui uma rica trajetória histórica e cultural:
- Foi construído em 1959 para a Exposição Internacional da Indústria e do Comércio, com projeto do renomado arquiteto Sérgio Bernardes.
- Considerado ousado para a época, apresentava uma das maiores áreas cobertas do mundo sem vigas.
- Com o passar dos anos, enfrentou problemas de conservação, sendo usado como barracão de escolas de samba e, após um vendaval nos anos 1980, virou depósito da Riotur.
- Em 2003, passou a abrigar o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, revitalizando o espaço.
- Foi tombado pela Câmara de Vereadores do Rio em 2021 e reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil por uma lei federal, destacando seu valor simbólico.
Contexto das dívidas e ações judiciais
O espaço está atualmente penhorado para o pagamento de dívidas, principalmente de natureza fiscal e trabalhista. Um dos pontos centrais do conflito remonta a 2012, quando a Riotur deixou de conceder o período mínimo de 11 horas consecutivas para descanso entre diferentes jornadas de trabalho, violando direitos trabalhistas. Essa infração contribuiu para o acúmulo de passivos que culminaram na decisão judicial de leilão.
Enquanto as negociações entre governo federal, prefeitura e Riotur prosseguem, a comunidade local e os amantes da cultura nordestina no Rio aguardam ansiosamente por uma resolução que preserve esse ícone da cidade. A Feira de São Cristóvão não é apenas um ponto de comércio e lazer, mas um símbolo de resistência e identidade cultural, cujo destino permanece em aberto até que um acordo definitivo seja alcançado.