Carnaval de SP: Império, Mocidade e Gaviões brilham em noite de desfiles equilibrados
Carnaval de SP: escolas se destacam em noite de desfiles equilibrados

Segunda noite do grupo especial do Carnaval paulista apresenta desfiles equilibrados e emocionantes

Em uma sequência de apresentações que equilibrou técnica e emoção ao olhar do público, as escolas Império de Casa Verde, Mocidade Alegre e Gaviões da Fiel se destacaram no segundo dia de desfiles do grupo especial do Carnaval de São Paulo. As apresentações ocorreram na noite de sábado (14) e madrugada de domingo (15) no Sambódromo do Anhembi, na zona norte da capital paulista.

No total, sete agremiações se apresentaram nesta segunda noite - outras sete haviam desfilado na véspera. A campeã e as duas rebaixadas serão conhecidas apenas na próxima terça-feira (17), após a apuração oficial dos jurados.

Império de Casa Verde abre com tigre dourado e homenagem à resistência negra

A Império de Casa Verde abriu a segunda noite do Carnaval com o enredo "Império dos Balangadãs: joias negras afro-brasileiras", fazendo uma poderosa referência às joias ancestrais que se tornaram símbolo da resistência negra contra o escravismo. A evolução foi um dos grandes destaques da escola, com um enorme tigre dourado - símbolo da agremiação - surgindo logo no carro abre-alas.

Junto ao tigre, uma escultura da "mãe do ouro" se levantou em um movimento que chamou a atenção de todos. Num momento de ousadia, o som parou por segundos e os integrantes da escola bateram palmas ritmadas sem perder o compasso. No geral, a Império realizou um desfile equilibrado, colorido e bastante elogiado pelas arquibancadas do Anhembi.

Águia de Ouro mistura Van Gogh, Anne Frank e polêmicas

A segunda escola a desfilar, Águia de Ouro, apresentou o enredo "Mokum Amsterdã, o voo da Águia à cidade libertária" com referências a Van Gogh e Anne Frank. A ala "Judia Resistente", com gotas de sangue alegóricas nas fantasias, homenageou todas as mulheres vítimas dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Em outra alegoria impactante, ciclistas gigantes exaltaram o hábito dos moradores de Amsterdã de usar bicicletas como meio de transporte principal. A águia gigante, símbolo da escola, veio à frente de um moinho de vento dourado em apresentação que fez referência aos girassóis e às pinceladas pós-impressionistas de Van Gogh. O desfile também trouxe polêmicas, como uma ala sobre cannabis e mulheres em cabines vermelhas em menção à prostituição legalizada na Holanda.

Mocidade Alegre homenageia Léa Garcia com emoção e pressa

Em uma verdadeira rapsódia carnavalesca, a Mocidade Alegre exaltou a trajetória de Léa Garcia, uma das maiores atrizes brasileiras, falecida em 2023 aos 90 anos em Gramado, onde receberia uma homenagem. Vestida com as cores do arco-íris, a médica e ex-BBB Thelma Garcia interpretou a pioneira negra do teatro e do cinema no abre-alas.

Outro ex-Big Brother, o também médico Fred Nicácio, fez uma conexão entre Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro, e Exu. O desfile narrou o sucesso da atriz no filme "Orfeu Negro", com a indicação como melhor intérprete no Festival de Cannes em 1957, e sua participação em diversas novelas, incluindo "Escrava Isaura", onde interpretou a antagonista Rosa. A evolução foi destaque, mas a escola precisou apertar o passo no final, encerrando sua apresentação já nos segundos extras para evitar punição por estouro de tempo.

Gaviões da Fiel celebra povos indígenas com desfile lotado

A representação de um ritual com o pó de Yãkoana, um alucinógeno xamânico usado pelos Yanomami, abriu o desfile da Gaviões da Fiel, a quarta a se apresentar. Na comissão de frente, dez indígenas dançaram em torno de um xamã no enredo "Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã", que celebra a luta e o legado dos povos originários.

O manifesto da Gaviões levou para o sambódromo a simulação de uma maloca indígena, povos originários em celebração, cocares originais, grafismo nas fantasias, uma floresta de cor prata e mulheres seminuas cavalgando pirarucus. Com 72 metros de comprimento, o carro abre-alas trouxe um imenso jacaré em tons ocre - a cor verde é tabu na escola corintiana. Indígenas que choravam representaram o massacre promovido pela chegada do "progresso", com grandes ferrovias e árvores derrubadas para criação de gado.

A escola homenageou líderes como Raoni, Ailton Krenak, Davi Kopenawa e a ministra Sonia Guajajara (Povos Indígenas), destaque em um dos carros. Sabrina Sato, na Gaviões desde 2004, veio à frente da bateria com fantasia que representa as flores da floresta. O desfile lotou as arquibancadas do Anhembi, com torcedores cantando sem parar como em um jogo do Corinthians.

Outras escolas completam a noite com homenagens e contratempos

A Estrela do Terceiro Milênio homenageou o compositor Paulo César Pinheiro, 76, com o enredo "Hoje a poesia vem ao nosso encontro", exaltando suas parcerias com Clara Nunes, Baden Powell, Martinho da Vila e outros grandes nomes. Uma escultura mostrou Pinheiro amordaçado, em alusão à censura sofrida durante a ditadura militar.

A Tom Maior, campeã do grupo de acesso em 2025, abordou a trajetória do médium Chico Xavier e a história de Uberaba (MG), enfrentando problemas com a iluminação de um dos carros que foram resolvidos durante o percurso.

Camisa Verde e Branco enfrenta problema crítico no carro final

A Camisa Verde e Branco, última escola a entrar na pista, viveu uma situação crítica: o último carro emperrou, atrasando a saída e fazendo a agremiação extrapolar o tempo limite em 19 segundos. A escola deve perder três décimos na pontuação, o que a prejudica significativamente na disputa com as concorrentes na apuração.

Integrantes da escola tentaram manter o ânimo durante o problema técnico. Quando o veículo voltou a funcionar, o público que restava nas arquibancadas aplaudiu intensamente. A sirene que anunciou o fim do desfile tocou minutos depois, quando o portão finalmente fechou. Muitos integrantes choravam no local da dispersão, e o vice-presidente da agremiação, João Vitor Ferro, precisou de atendimento médico.

Antes do contratempo, o enredo "Abre Caminhos" animou o público ao celebrar as diversas manifestações de Exu, o guardião das encruzilhadas. A beleza dos tons de vermelho, preto e amarelo das fantasias foi ressaltada pela luz do amanhecer no sambódromo. Três mil placas de búzios decoraram o carro abre-alas inspirado na arte africana, completando uma apresentação marcante apesar dos problemas técnicos.