Bloco do Bobo: a tradição carnavalesca que resiste em Maceió através das gerações
Uma das manifestações culturais mais tradicionais do carnaval maceioense tem origem em uma simples brincadeira de criança e atravessa décadas mantendo viva a essência da cultura popular alagoana. Esta é a história do Bloco do Bobo, folguedo típico que se transformou em símbolo de resistência cultural no bairro do Bom Parto, na capital alagoana.
Das brincadeiras infantis à tradição consolidada
A origem do bloco remonta à infância de Antônio Severino, fundador do movimento e referência na promoção cultural da comunidade. Inspirado por personagens caricatos e "monstros fofões", ele e outros meninos começaram a criar fantasias improvisadas com materiais simples do cotidiano.
"Baseado naqueles monstrinhos fofões, a gente começou a trabalhar o bobinho com uma roupinha de saco de nylon, a corda amarrada na cintura, batendo umas latas. Começamos quando crianças. Depois, já adultos, fomos pegando o pique, gostando disso e moldando esse carnaval até chegar aqui", relembrou Antônio em entrevista.
Construção coletiva e fortalecimento comunitário
Mais do que um simples desfile carnavalesco, o Bloco do Bobo funciona como espaço de formação e fortalecimento comunitário. A própria população participa ativamente da confecção das fantasias e da organização das alas, mantendo viva a tradição no bairro através de um processo coletivo e permanente.
"É produção da própria comunidade. Eles se juntam para delegar funções e assim se movimenta o nosso carnaval. Eu dou oficinas todas as segundas e quintas-feiras", afirmou Severino, destacando o caráter educativo e participativo da iniciativa.
Na avenida, essa união se transforma em cores e ritmos vibrantes. O bloco reúne diversas alas que dão identidade única ao cortejo, incluindo:
- Batuque das Poderosinhas
- Boi Caprichoso
- Ala dos Narcóticos Anônimos
- Bloco da Inclusão
Resistência após desafios ambientais
O caminho percorrido pelo Bloco do Bobo não foi apenas de festa e celebração. O grupo se tornou um dos poucos que resistem após os graves danos ambientais e o afundamento do solo causados pela extração de sal-gema em diversos bairros de Maceió.
A desocupação forçada de bairros como Mutange, Bebedouro e Pinheiro afetou diretamente a dinâmica cultural da região, dispersando comunidades inteiras que participavam ativamente das manifestações carnavalescas.
"Os bobos que a gente tinha vinham do Alto das Colinas, desciam a Chã de Bebedouro, passavam no Mutange. Quando acabou com esses bairros, acabou com o movimento e com a população que fazia parte do carnaval com a gente", relatou Antônio com pesar.
Enquanto muitos grupos desapareceram com o esvaziamento das comunidades, o Bloco do Bobo permaneceu ativo no Bom Parto, mantendo ensaios regulares, oficinas criativas e desfiles anuais mesmo diante das adversidades socioambientais.
Transformando dor em expressão cultural colorida
Apesar dos impactos que a comunidade ainda enfrenta, cada detalhe do figurino carrega significados profundos. A escolha cuidadosa das cores e do desenho do personagem principal é pensada como forma de transformar experiências difíceis em expressão cultural vibrante.
"Além da pandemia, que deixou todo mundo triste, ainda vem a violência. Para trabalhar esse sentimento, esse bobo não é um bobo bizarro, ele é um bobo alegre. Tem uma cara sorridente, é colorido, mexe com os sentimentos da comunidade", explicou Antônio Severino.
O Bloco do Bobo representa assim muito mais que uma manifestação carnavalesca tradicional. Ele se configura como um espaço de resistência cultural, fortalecimento comunitário e transformação social, onde a alegria e as cores servem como ferramentas para enfrentar desafios e manter viva a identidade cultural alagoana através das gerações.