Tribunal rejeita recurso e mantém ucraniano fora das Olimpíadas por capacete com vítimas da guerra
Ucraniano banido das Olimpíadas por capacete com vítimas da guerra

Atleta ucraniano é definitivamente excluído dos Jogos Olímpicos de Inverno após decisão judicial

O esqueleto ucraniano Vladyslav Heraskevych está oficialmente fora dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, após o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) rejeitar seu recurso contra a desclassificação. A decisão, anunciada na sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026, mantém a punição aplicada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) por Heraskevych ter usado um capacete com fotos de mais de 20 treinadores e atletas ucranianos mortos desde a invasão russa.

Capacete da memória considerado incompatível com regras olímpicas

A homenagem, batizada pelo atleta de "capacete da memória", foi considerada incompatível com as normas olímpicas que limitam manifestações políticas durante competições. O árbitro único designado pelo TAS reconheceu a carga simbólica da iniciativa, mas concluiu que as restrições impostas pelo COI são "razoáveis e proporcionais".

Segundo a corte esportiva, as regras permitem manifestações fora da área de competição — como em entrevistas ou nas redes sociais —, mas proíbem declarações no campo de jogo durante provas e cerimônias oficiais. O advogado do atleta, Yevhen Pronin, criticou a decisão e afirmou que o tribunal "deu razão ao COI" ao aceitar que um competidor possa ser desclassificado mesmo sem conduta antiética ou ameaça à segurança.

Tentativas de negociação fracassaram antes da desclassificação

Na prática, o recurso já tinha pouco efeito prático. Heraskevych foi impedido de largar cerca de 45 minutos antes do início de sua prova, na quinta-feira, e deixou a Vila Olímpica de Cortina d'Ampezzo naquela mesma noite. "Parece que este trem já partiu", afirmou o atleta após a audiência, reconhecendo que não teria mais chance de competir.

A decisão do COI foi tomada após uma reunião de última hora entre o atleta, seu pai e a presidente da entidade, Kirsty Coventry. Segundo ela, a medida seguiu as diretrizes que determinam que o foco das competições deve ser "a celebração do desempenho dos atletas". "Eu respeito suas convicções, mas isso não muda as regras", declarou a dirigente.

COI ofereceu alternativas que foram recusadas pelo atleta

O Comitê Olímpico Internacional argumenta que a limitação existe para proteger atletas de pressões políticas e evitar que o palco olímpico seja usado para manifestações nacionais ou governamentais. A entidade chegou a oferecer alternativas a Heraskevych:

  • Competir com outro capacete e exibir o modelo original na zona mista após a prova
  • Usar uma braçadeira preta — gesto que, em regra, também é proibido, mas poderia ser autorizado como exceção

O atleta recusou todas as opções, mantendo sua posição de homenagear os compatriotas mortos durante a competição.

Caso ganha contornos sensíveis no contexto do conflito

A situação ganhou contornos ainda mais sensíveis pelo contexto da guerra. Heraskevych já havia criticado a decisão do COI de permitir a participação de russos e bielorrussos como atletas "neutros" em Milão-Cortina. Após a desclassificação, afirmou que a medida "fortalece a propaganda russa".

O ucraniano também questionou por que outras homenagens feitas nestes Jogos não resultaram em punição. Citou o patinador artístico americano Maxim Naumov, que exibiu uma foto dos pais mortos em um acidente aéreo, e o snowboarder italiano Roland Fischnaller, que tinha uma pequena imagem da bandeira russa em seu capacete como parte de uma série de bandeiras de sedes olímpicas onde competiu.

O COI respondeu que esses casos não violaram as regras porque não configuraram manifestação no momento da competição ou tinham contexto distinto. O TAS determinou, no entanto, que Heraskevych mantenha sua credencial olímpica.

Críticas internacionais e posicionamento político

"Nunca imaginei que se tornaria um escândalo tão grande", disse o atleta. Para ele, a decisão coloca o COI "do lado errado da história". Anteriormente, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, já havia condenado a decisão de desclassificar o atleta.

"Esporte não significa indiferença, e o movimento olímpico deveria ajudar a parar guerras, não apoiar o agressor", escreveu Zelensky nas redes sociais. "Infelizmente, a decisão do Comitê Olímpico Internacional de desqualificar o atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych é extremamente negativa. Isso certamente não está de acordo com os princípios básicos dos Jogos Olímpicos, que se baseiam na justiça e no apoio à paz".

O caso continua a gerar debates sobre os limites entre manifestação política e competição esportiva em eventos internacionais de grande visibilidade.