A história do esquiador Lucas Pinheiro Braathen como atleta brasileiro começou após uma série de descontentamentos com a confederação norueguesa, um anúncio surpreendente de aposentadoria, a busca por maior liberdade e o desejo profundo de vestir o verde e amarelo do país natal de sua mãe. Dono da primeira medalha do Brasil na história dos Jogos Olímpicos de Inverno, com um ouro no slalom gigante do esqui alpino, Lucas é filho do norueguês Bjorn Braathen e da brasileira Alessandra Pinheiro de Castro.
Da Noruega ao Brasil: uma jornada de liberdade
Lucas conquistou sua primeira medalha em etapas de Copa do Mundo em Sölden, na Áustria, na temporada 2020/2021, quando tinha apenas 20 anos. Ele se tornou campeão mundial pela Noruega em 2023, mas os títulos já não o satisfaziam mais. Com destaque no cenário internacional, ele surpreendeu o mundo ao anunciar sua aposentadoria meses depois, com apenas 23 anos.
"Muitos estranharam, afinal eu era muito novo e ainda tinha muito a fazer pelo esqui. Voltei atrás cinco meses depois, quando um caminho singular surgiu: defender as cores do Brasil, o país da minha mãe. Era a chance de escrever uma história e levar a bandeira das minhas origens ao topo do esporte de inverno", declarou Lucas ao UOL em 2024.
Atritos com a confederação norueguesa
Os problemas com a confederação norueguesa de esqui alpino foram um fator crucial em sua decisão. Lucas enfrentava restrições comerciais, sendo obrigado a utilizar os patrocinadores da entidade, enquanto mantinha um contrato volumoso com a Red Bull. As tensões na relação se acumularam e se tornaram um ingrediente considerável para o fim de sua carreira pela Noruega.
"O vazio no meu coração após o título se uniu à insatisfação com a federação norueguesa de esqui. Não me sentia livre e decidi largar o esporte em outubro de 2023 para abraçar minhas outras paixões: música, arte, moda. Cinco meses depois, a chance de defender as cores da bandeira brasileira apareceu. Não pensei duas vezes", revelou o atleta.
Uma parceria de mão dupla com o Brasil
O Brasil não poderia oferecer grandes recursos financeiros, mas apresentou a independência que Lucas tanto procurava, além de um planejamento para mantê-lo na briga pelos pódios. A troca de nacionalidade criou uma relação benéfica para ambos os lados: o atleta ganhou liberdade para assinar contratos sem as amarras da Confederação Brasileira de Desporto na Neve (CBDN), e o Brasil conquistou um nome de destaque para desenvolver um esporte sem tradição em um país tropical.
Anders Pettersson, presidente da CBDN, explicou o processo: "Há pouco mais de dois anos ele declarou a aposentadoria. Tinha 23 anos e disse que tinha perdido o prazer de competir. Depois, nos procurou e falou sobre o interesse de voltar a competir. Estávamos acompanhando a carreira. À época, ele não tinha passaporte brasileiro. Deu entrada na papelada, conseguiu e iniciamos o processo para ele defender o Brasil".
Liberdade e responsabilidade
O que Lucas buscava era, principalmente, liberdade para competir, montar sua própria equipe e ter patrocinadores próprios. A CBDN se comprometeu a cuidar da logística e inscrições, enquanto o atleta assumiu a responsabilidade por sua equipe, que conta com oito funcionários e um orçamento anual de aproximadamente 1,5 milhão de euros (R$ 9,2 milhões).
"Dissemos que a CBDN não teria esse recurso, mas que iríamos dar uma ajuda pequena, via Comitê Olímpico do Brasil, e a grande parte ele teria de conseguir. Então houve uma mudança, da parte dele, de buscar patrocinador, coisa que ele não podia fazer na equipe norueguesa", completou Pettersson.
Patrocínios e desenvolvimento do esporte
Além da Red Bull, Lucas também conta com patrocínio da Visa, que anunciou parceria com o atleta no ano passado, e da Corona Zero, que o nomeou como embaixador da marca nos Jogos de Inverno. Ele também atua como modelo, tem contrato com a marca italiana de luxo Moncler e uma linha própria de óculos de esqui da Oakley, entre outros patrocinadores.
A CBDN esperava que Lucas ajudasse a desenvolver o esqui alpino no Brasil e se tornasse uma referência para outros atletas. "E isso ele tem feito! Ele é muito acessível, contribui bastante para a CBDN. Os dois lados ganharam", afirmou o presidente da confederação.
Chance de nova medalha
Lucas Pinheiro Braathen conquistou a primeira medalha do Brasil - e da América Latina - nos Jogos de Inverno e terá oportunidade de subir novamente ao pódio. Ele disputa o slalom masculino na manhã de segunda-feira, no Stelvio Ski Centre, em Cortina, Itália.
A primeira descida ocorrerá às 6h (horário de Brasília), e a segunda às 9h30, com a definição dos medalhistas ao final da segunda apresentação. O campeão olímpico quer aproveitar a "energia" brasileira para tentar mais uma conquista: "Trazer toda a energia, todo o amor, felicidade que eu sinto agora. Vou canalizar todo esse amor", disse ao sportv.
Além de Lucas, outros dois brasileiros estarão na prova: Christian Oliveira Soevik e Givovanni Ongaro, completando a representação nacional na competição.
