SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em meio a tantas produções disputando atenção nas plataformas de streaming, uma série brasileira conseguiu furar a bolha e reacender um debate necessário sobre um dos episódios mais marcantes da história recente do país. Trata-se de 'Emergência Radioativa', que chegou a ser a mais assistida entre todas as de língua não inglesa na Netflix.
O impacto da série
À frente de um dos núcleos mais sensíveis da trama, Marina Merlino, 32, vive Catarina, personagem que carrega dor, perda e resistência. A trama revisita o acidente com o Césio-137, em Goiânia, e acompanha as consequências humanas da tragédia. O alcance da produção surpreendeu até quem estava dentro dela.
'A gente sempre torce para que o trabalho tenha um alcance amplo, mas confesso que está todo mundo um pouco embasbacado com a proporção', afirma a atriz. 'Principalmente essa projeção internacional, com a série entrando no top 10 em muitos lugares.'
Mais do que números, o retorno do público tem chamado atenção. 'Estou muito feliz e, acima de tudo, muito grata. Nem sempre essa experiência é gentil, mas a minha está sendo. O público tem se aproximado com muito carinho e diálogo', diz.
Mérito da série
Para ela, o principal mérito da série está em recolocar o tema em pauta. 'O mais importante é que as pessoas estão falando sobre o caso. A série joga luz, mas quem faz a diferença são as pessoas que se mobilizam.'
Na história, Catarina é a única da família que não foi contaminada pela radiação, mas isso não a livra das consequências. Ao contrário, a personagem precisa lidar com o afastamento da filha, o preconceito e a reconstrução da própria vida.
'Foi um processo muito denso, mas também muito prazeroso', conta Merlino. 'Quando recebi o teste, comecei a pesquisar obsessivamente sobre o caso. Li matérias, vi entrevistas, documentários... fui cavucando até onde deu.'
Preparação e desafios
A preparação não ficou apenas na pesquisa. A atriz destaca que o maior desafio foi construir humanidade para além da tragédia. 'Seria muito cruel reduzir essas pessoas à dor. Elas têm sonhos, desejos, histórias. A gente precisava construir o amor dessa família para que o sofrimento tivesse profundidade', explica.
Essa escolha narrativa ganha força em momentos-chave, como na cena em que a personagem retorna para casa e percebe que não tem mais nada – nem espaço físico, nem estrutura familiar. 'Existe um sentimento de desamparo muito forte, mas também de dignidade. Acho que essa é a palavra. Algo que pode ser tirado de fora, mas que permanece dentro.'
Bastidores respeitosos
Nos bastidores, o clima acompanhava a delicadeza do tema. 'Foi um set muito respeitoso. Existia um cuidado coletivo com essa história', afirma. Segundo ela, cenas mais intensas eram preparadas com antecedência, discutidas entre elenco e direção, e havia espaço para pausa e respiro. 'O tempo foi essencial. Tempo para entrar em cena e tempo para sair dela.'
Durante as gravações, Merlino também atravessava um momento pessoal sensível, após a perda recente do pai. A experiência acabou atravessando sua construção como atriz. 'As coisas se encontram. Não é o mesmo luto da personagem, mas toca em lugares parecidos. E eu não acho isso ruim – é o que dá verdade.'
Arte como reflexão
Estrelada também por Johnny Massaro, a série conseguiu transformar uma tragédia nacional em um debate internacional, algo que, para a atriz, reforça o papel da arte. 'A cultura serve para isso: fazer a gente olhar para a realidade e elaborar o mundo', diz. 'O fato de o Brasil estar olhando para o Brasil – e de outros países também – já faz a atuação valer a pena.'



