A telenovela Dona de Mim, que ocupou o horário das 19h na TV Globo, encerrou sua exibição nesta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, após uma jornada marcada por altos e baixos tanto na narrativa quanto nos índices de audiência. Com autoria de Rosane Svartman, a produção estreou em 28 de abril e cativou o público com sua agilidade, mas enfrentou desafios significativos em sua fase final.
Os Grandes Acertos que Conquistaram o Público
Um dos pontos mais celebrados pela crítica e pelo público foi, sem dúvida, a escolha da protagonista. Clara Moneke, aos 27 anos, assumiu o papel principal após se destacar em "Vai na Fé" e provou ser uma escolha inspirada. A atriz paulistana de ascendência nigeriana trouxe humor, romance e drama com maestria, representando com relevância mulheres negras retintas e provedoras, um recorte social pouco visto no protagonismo da televisão brasileira.
O elenco, de modo geral, foi um acerto. A mistura fluida entre nomes novos e veteranos criou um conjunto coeso e carismático. Outro destaque foi a teia romântica complexa. A trama abandonou o triângulo amoroso tradicional para criar um intrigante quadrilátero – ou até hexágono – de relacionamentos. Leona (Clara Moneke) dividia seu interesse entre o ex-noivo Marlon (Humberto Martins) e os irmãos Samuel (Juan Paiva) e Davi (Rafael Vitti), enquanto outras relações, como a de Kami (Giovanna Lancellotti) com Marlon e Ryan (L7nnon), mantinham o público em suspense sobre os pares finais.
Representatividade Autêntica como Pilar
Rosane Svartman e sua equipe demonstraram um olhar afiado para a diversidade brasileira. A novela apresentou personagens de diferentes religiões – judeus, evangélicos e umbandistas – e de várias classes sociais, tudo sem recorrer a estereótipos fáceis. A representatividade de corpos e cores foi tratada não como um slogan, mas como uma prática natural da trama, refletindo um Brasil plural e real.
Os Erros que Impactaram a Reta Final
Apesar dos muitos acertos, a novela cometeu alguns deslizes. Um deles foi o desequilíbrio entre o tom leve e temas pesados. Embora novelas do horário tratem de dramas, a sequência de eventos como a morte do pai de Marlon, o falecimento do protagonista Abel (Tony Ramos) e, principalmente, o estupro sofrido pela personagem Kami, pesou excessivamente no clima da história, criando um contraste difícil com o tom geral inicial.
Contudo, o erro mais impactante veio com o esticamento da trama. Originalmente planejada para ter 170 capítulos, a Globo decidiu estender a novela para 218 episódios, adicionando mais dois meses de exibição. Segundo a autora, a decisão foi tomada por razões pragmáticas da emissora, servindo como um "tapa-buraco" na grade no fim de ano, marcado por campeonatos esportivos, e para entregar o horário à sua sucessora, "Coração Acelerado", em um momento mais propício para a audiência, fugindo da tradicional queda de dezembro.
As Consequências do Esticamento
Escrever 48 capítulos extras não foi uma tarefa fácil e o resultado refletiu a dificuldade. O ritmo ágil que era uma marca da novela foi prejudicado. Para tentar manter a atenção do público, a autora Rosane Svartman recorreu a reviravoltas consideradas rocambolescas pelos espectadores, como o retorno da personagem Ellen (Camila Pitanga), que supostamente estava morta. Essas manobras narrativas foram vistas como desnecessárias e afetaram a coerência da reta final.
Em resumo, Dona de Mim deixa um legado misto. Por um lado, será lembrada por sua protagonista histórica, pela representatividade autêntica e por uma trama de amor envolvente. Por outro, serve como exemplo de como decisões de programação podem interferir na qualidade artística, transformando um final potencialmente redondo em um desfecho apressado e cheio de altos e baixos. A novela teve uma trajetória agridoce, indo do sucesso em audiência a um final conturbado, marcando o horário das sete com seus acertos inegáveis e seus erros memoráveis.