O grupo Boca Livre lança na sexta-feira, 15 de maio, o álbum Boca canta Edu, em que interpreta onze músicas do compositor Edu Lobo. O projeto fonográfico, em tese sem riscos, coleciona acertos ao longo das faixas, apesar de a refinada técnica vocal do quarteto carioca prevalecer em alguns momentos sobre o sentimento.
Repertório selecionado com coragem
Já na abertura com "Veneta" (Edu Lobo e Chico Buarque, 2001), o grupo se desvia dos grandes sucessos ao recriar esse coco de embolada da trilha sonora do musical Cambaio. A gravação destaca a vivacidade rítmica do tema, com vozes a capella e pandeiro percutido por Zé Renato.
David Tygel, Lourenço Baeta, Mauricio Maestro e Zé Renato, em conexão com Edu Lobo há décadas, demonstram conhecimento ao gravar melodias sofisticadas e harmonias intrincadas. O baião "Uma vez, um caso" (Edu Lobo e Cacaso, 1976) tem sua saga trágica amenizada pelo arranjo, sublinhado pelo violoncelo de Iura Ranevski.
Influências nordestinas e parcerias
O grupo segue o frevo-canção "Zanga zangada" (Edu Lobo e Ronaldo Bastos) e a moderna moda de viola "Viola fora de moda" (Edu Lobo e José Carlos Capinan, 1973), harmonizando violões e violas em sintonia com o som característico do quarteto, formado no Rio de Janeiro em 1978.
Naquele ano, Edu Lobo gravou o álbum Camaleão e convidou o grupo debutante para fazer vocais em "Sanha na mandinga", parceria com Cacaso. A faixa reaparece refinada no novo álbum, atestando a coerência entre grupo e compositor.
Participações especiais
O álbum referencia Tom Jobim no arranjo vocal de "Choro bandido" (Edu Lobo e Chico Buarque, 1985). O samba "Ave rara" (Edu Lobo e Aldir Blanc, 1993) reúne o Boca Livre com o MPB4, reforçando conexão iniciada há 45 anos. Já "Corrida de jangada" (Edu Lobo e José Carlos Capinan, 1967) conta com a cantora Vanessa Moreno, uma das preferidas de Edu Lobo atualmente.
Equilíbrio entre técnica e emoção
Em "Arrastão" (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965), o grupo se desvia da grandiosidade épica de Elis Regina, buscando outros caminhos harmônicos com cordas orquestradas por Maurício Maestro, piano jazzy de João Carlos Coutinho e a voz discreta do próprio Edu Lobo.
Na canção "Dos navegantes" (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, 1993), há maior equilíbrio entre técnica e emoção, abordando a melancolia de um viajante marítimo. O álbum encerra com "Candeias" (1967), uma das poucas composições em que Edu Lobo assina música e letra. A gravação recupera a introdução original do autor, suprimida em outros registros, e é embalada por cordas e sentimento nas vozes.
Com lançamento pela Som Livre, Boca canta Edu imprime a sofisticação do compositor na assinatura vocal do grupo, sem erros, combinando técnica e emoção de forma precisa.



