Exposição cancelada na véspera da inauguração gera polêmica em Minas Gerais
O artista plástico Élcio Miazaki preparava-se para inaugurar sua exposição Habeas Corpus na Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) quando recebeu a notícia da suspensão temporária da mostra. O cancelamento ocorreu na véspera da abertura ao público, após um ofício da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais questionar a classificação indicativa e o conteúdo das obras.
Questionamentos sobre nudez e retratos da ditadura
Segundo o documento oficial, assinado pela então secretária Bárbara Botega, a suspensão visava analisar critérios legais vinculados à administração pública, alegando que o material continha cenas de nudez consideradas impróprias. "A medida solicitada visa assegurar o cumprimento da legislação vigente, sem prejuízo à liberdade de expressão artística", justificou o ofício, que também mencionava a necessidade de observar limites aplicáveis ao interesse coletivo.
A exposição, que além das cenas de nudez apresenta retratos referentes ao período da ditadura militar, já havia enfrentado dificuldades durante o processo de aprovação. "Levei um susto ao saber disso", revelou Miazaki em entrevista exclusiva. "Já havia dificuldades anteriores na aprovação da arte do convite, com questionamentos recorrentes às imagens por parte do setor de comunicação da secretaria".
Críticas à postura da secretária e uso político
O artista argumenta que a Fundação de Arte de Ouro Preto poderia ter recusado a solicitação, por não se tratar de uma ordem formal. "Juridicamente, talvez pudesse não ter sido acatada", avaliou Miazaki. "Na minha visão, houve um uso político da situação, com um argumento sem fundamento para gerar visibilidade. Infelizmente, esse tipo de situação acaba recaindo sobre a cultura, que historicamente é colocada à margem".
Miazaki também criticou publicamente a postura da então secretária Bárbara Botega, que levou o caso às redes sociais um dia após a suspensão. Em publicação no sábado, 28 de março, Botega compartilhou um vídeo rebatendo as acusações de censura, com a legenda: "Responsabilidade com nossas crianças e adolescentes não é censura".
"É lamentável que uma secretária de Cultura ataque a própria pasta", afirmou o artista. "Trata-se de um desserviço, cujo impacto recai sobre toda a sociedade". A crítica faz referência ao fato de Botega ter deixado o cargo para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
Defesa da Fundação de Arte e contexto eleitoral
Em nota oficial, a Faop defendeu a realização da exposição e contestou as alegações da secretaria. "O conjunto das obras evidencia uma pesquisa consistente sobre vulnerabilidade, masculinidade, repressão, silêncio e violência simbólica", afirmou a instituição. "Trata-se de uma exposição de natureza estética e conceitual, e não de afronta à legalidade. A mostra conta com sinalização clara ao público e classificação indicativa de 14 anos, dentro dos parâmetros legais e institucionais cabíveis".
Esta é a primeira vez que Élcio Miazaki tem uma exposição censurada, mas ele ressalta que o episódio não é isolado na classe artística. "Isso vem de tempos em tempos", lamentou. "É um abuso e uma falta de respeito que não afeta apenas o artista, mas também a instituição e os profissionais envolvidos. Vejo o momento atual como bastante complicado, ainda mais em ano eleitoral".
A coluna também procurou o atual secretário de Cultura de Minas Gerais, Leônidas Oliveira, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O caso continua gerando debates sobre os limites da liberdade artística e a atuação das instituições culturais em períodos eleitorais.



