Filme 'O Drama' usa romance como isca para tratar de tema espinhoso da sociedade americana
Na ácida comédia cinematográfica, uma confissão sobre um tiroteio escolar divide o casal central e expõe a tenebrosa banalização desse tipo de tragédia. O filme "O Drama", estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, surpreende ao trocar o romance por uma crítica contundente e controversa sobre os tiroteios em massa nas escolas dos Estados Unidos.
Romance abalado por segredo do passado
Apaixonados, os jovens Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) transbordam a rara alegria daqueles que encontraram no mundo sua alma gêmea. A poucos dias da cerimônia de casamento, contudo, o amor teoricamente incondicional é posto à prova quando um segredo indigesto envolvendo um deles é revelado.
Assim o filme O Drama (The Drama, Estados Unidos, 2026), já em cartaz nos cinemas, foi anunciado, com direito a trailers misteriosos e cartazes de divulgação dignos de uma comédia romântica açucarada. Não à toa, o tal segredo, que passou a circular nas redes sociais antes da estreia, causou choque entre o público.
Tema central vai além do romance
Sem entrar em detalhes sobre spoilers para preservar a experiência do espectador, pode-se afirmar que o tema central do roteiro não é o amor jovial, mas sim a cultura dos tiroteios em massa nas escolas americanas — e sua tenebrosa banalização na sociedade contemporânea.
Ao colocar o dedo em uma ferida aberta dos Estados Unidos — e com um forte tom ácido e cômico —, O Drama dividiu opiniões de forma significativa:
- Há quem sinta repulsa e peça boicotes ao filme
- Há quem o veja como um reflexo crítico necessário do crime tido como comum
Contexto histórico dos tiroteios escolares
Os números reforçam a urgência do tema abordado. Desde o trágico ataque ao colégio Columbine, no Colorado, em 1999, no qual treze jovens morreram e 24 ficaram feridos, outros 435 tiroteios ocorreram em escolas americanas.
O mais letal foi o de 2007, na Virgínia, com 32 mortos. As questões sobre o que leva um jovem a atacar outros de forma tão brutal passaram a intrigar a sociedade e, naturalmente, os cineastas ao longo das décadas.
Evolução do tema no cinema
Inicialmente, o tema foi vertido em documentários, caso do provocativo "Tiros em Columbine" (2002), de Michael Moore, vencedor de um prêmio especial em Cannes. Em seguida vieram filmes mais realistas, a exemplo do devastador "Elefante" (2003), do diretor Gus Van Sant, também laureado pelo festival francês.
Com o tempo, o assunto perdeu apelo no cinema: a presença constante de massacres do tipo nos noticiários transformou o horror em rotina. Só em 2026, por exemplo, já foram 98 tiroteios em massa no país.
Movimento recente no cinema
O Drama integra um movimento curioso de anos recentes, em que filmes variados retomaram o assunto, mas a partir de recortes distintos:
- "Precisamos Falar sobre o Kevin" (2011) - foca na mãe do atirador
- "A Vida Depois" (2021) - aborda o trauma dos sobreviventes
- "A Hora do Mal" (2025) - usa alegoria sobre desaparecimento de crianças
- "Quartos Vazios" - documentário vencedor do Oscar sobre memórias das vítimas
Abordagem profunda e reflexiva
Dirigido pelo norueguês Kristoffer Borgli, a produção tece um balanço dos míseros esforços de conscientização sobre o uso de armas em contraponto à enorme corrente que vangloria a violência no mundo virtual.
O filme faz do extremismo um ambiente prolífico para jovens problemáticos e se aprofunda ao questionar aspectos fundamentais:
- É possível reconhecer a suscetibilidade de pessoas comuns a intenções vis?
- Qual a importância do pertencimento e da reabilitação?
- Até que ponto a segunda chance é possível na sociedade atual?
Enquanto isso, o público fica preso à presença inebriante dos atores principais em cena, criando uma experiência cinematográfica que não permite indiferença diante de tema tão perturbador e delicado.



