Crítica: 'O Drama' desperdiça premissa polêmica com Zendaya e Pattinson
Imagine descobrir, apenas três dias antes do seu casamento, um episódio inegavelmente condenável do passado da pessoa com quem está prestes a jurar amor eterno diante de amigos e familiares. Com essa premissa promissora – e certamente polêmica – e um casal de estrelas do calibre de Zendaya, de Euphoria, e Robert Pattinson, o intérprete de Batman, O Drama tinha tudo para ser um novelão divertido, ideal para fomentar debates acalorados após os créditos finais.
Entre a leveza e o absurdo
O filme independente, que estreia nesta quinta-feira, 9 de maio, nos cinemas brasileiros, até consegue funcionar muito bem como tal na leveza de sua abertura e no absurdo de sua conclusão. Infelizmente, sanduícha entre esses momentos um longo trecho focado na neurose irritante de seu protagonista, recheado de enquadramentos inexplicáveis e situações verdadeiramente esdrúxulas.
Muitas produções cinematográficas de qualidade conseguem transformar uma situação pessoal em uma história universal. O Drama, no entanto, pega uma ideia particular com tremendo potencial coletivo e, lamentavelmente, a condensa novamente sob um olhar excessivamente específico e limitado.
O segredo que não pode ser revelado
O roteiro do diretor norueguês Kristoffer Borgli, conhecido por O Homem dos Sonhos, narra as repercussões da revelação do grande segredo da personagem interpretada por Zendaya, dias antes de seu casamento com o noivo vivido por Pattinson. Sem a possibilidade de detalhar exatamente a natureza da hecatombe, para evitar acusações severas de spoiler, basta afirmar que é compreensível a revolta de parte do público norte-americano – embora não necessariamente justificável.
A indignação gerada pelo filme depende muito do poder de abstração de cada espectador. Algo cada vez mais raro nos dias atuais, é verdade, mas aqueles que conseguirem ir além têm a chance de contemplar o universo de possibilidades contido na pergunta que abre esta crítica. Ou teriam, pelo menos.
Foco problemático e química perdida
Porque, assim que lança a bomba narrativa na mente do espectador, o filme decide mergulhar profundamente na mente do protagonista – e abre mão completamente de qualquer possibilidade de empatia mais ampla, com exceção talvez de homens à beira da meia-idade, muito ingleses e excessivamente neuróticos.
A escolha narrativa de Borgli também impede o desenvolvimento de uma química mais real e convincente entre os dois astros. Fica ainda mais difícil compreender as incertezas do personagem principal quando o próprio relacionamento do casal nunca parece fazer muito sentido ao longo da trama.
Recuperação tardia e gosto amargo
O Drama até volta a melhorar consideravelmente no final, ao abraçar novamente o ritmo de farsa e devolver o protagonismo à noiva, de longe o elemento mais interessante – e simultaneamente mais mal explorado – de toda a narrativa. A essa altura, no entanto, o gosto deixado pelo longo e cansativo trecho anterior não consegue ser superado totalmente.
Pelo menos o debate que certamente surgirá ao final da sessão ainda promete ser animado e cheio de opiniões divergentes. O filme independente, apesar de suas falhas, consegue levantar questões pertinentes sobre relacionamentos, segredos e as expectativas sociais que cercam o matrimônio.



