O ator Cirillo Luna, de 43 anos, vive uma transformação notável em sua carreira. Após interpretar uma figura bíblica icônica, ele agora se lança em um papel que mergulha nas complexidades da sexualidade e da política no Brasil contemporâneo. Sua trajetória é um testemunho de versatilidade artística e coragem pessoal.
Da Bíblia para a política contemporânea
Cirillo Luna deixa para trás as vestes do Rei Davi, personagem que viveu na novela 'Reis', da Record TV, para encarnar Rafael, um político gay não assumido, no longa-metragem 'Ato Noturno'. O filme, que estreia em 2026, aborda a homofobia no país e a dupla vida de um homem público que precisa esconder seu relacionamento homossexual e seus fetiches.
Apesar da distância histórica e temática entre os dois personagens, o ator enxerga um fio condutor. "Em outras proporções, existe um lugar da luxúria que os dois tinham", compara Luna. "Davi largou o amigo para guerra, para ficar com a esposa dele; e o Rafael tem fetiche sexual e reprime a sexualidade. Além, claro, da ligação de ambos com a política. De certa maneira, tiveram sucesso com o trabalho".
A vida imitando a arte: preconceito e representatividade
Assim como seu novo personagem, Cirillo Luna é um homem gay e enfrentou o preconceito dentro da própria carreira artística. Para ele, assumir papéis como o de Rafael tem um significado que vai além do trabalho. É uma forma de contribuir para uma sociedade mais aberta.
"Se, de alguma forma, puder contribuir com a minha experiência para ajudar novos jovens, estou decidido a contribuir", declara o ator, visivelmente emocionado. "Foi importante para mim ter referências e me fez ficar mais forte e corajoso. É bonito ver o Gabriel (parceiro de cena) livre desses dogmas. A gente vê uma vida com muito mais leveza e liberdade. Se esse discurso puder fazer com que outras vidas sejam mais livres, inclusive a minha, estou aí para isso".
Uma jornada de descoberta: do consultório ao palco
A paixão pelas artes cênicas fez Cirillo Luna abandonar a profissão de dentista para seguir seu verdadeiro chamado. Aos 20 anos, ele começou a se deslocar todos os finais de semana de Macaé, no interior do Rio de Janeiro, para a capital, a fim de frequentar um curso de artes cênicas. O teatro o conquistou de vez, e os consultórios ficaram para trás.
"Me entendo como artista desde que nasci, mesmo tendo só assim me tornado profissionalmente mais velho", reflete. "O meu olhar para o mundo é mais atento para a subjetividade, para poesia que a gente vê na vida e nas pequenas coisas".
A estreia em 'Ato Noturno' marca um novo capítulo nesta jornada, consolidando Cirillo Luna não apenas como um ator talentoso, mas como uma voz importante para a representatividade LGBTQIAPN+ no cinema brasileiro. Sua história ressoa como um ato de resistência e arte, mostrando que a diversidade de papéis na tela é fundamental para refletir a diversidade da vida real.