Larissa Noel personifica Zezé Motta com brilho radiante em musical que celebra trajetória e luta antirracista
O musical "Prazer, Zezé!", em cartaz até este domingo, 21 de abril, no Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis, em São Paulo, apresenta uma homenagem profunda e emocionante à artista Maria José Motta de Oliveira, conhecida nacionalmente como Zezé Motta. Com dramaturgia de Toni Brandão e direção de Débora Dubois, o espetáculo vai muito além de uma simples biografia, conectando a trajetória pessoal da artista com importantes pautas identitárias contemporâneas.
Uma apresentação plena da artista e sua luta
O título engenhoso do musical não apenas alude à música composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho em 1978, mas sinaliza a intenção de apresentar Zezé Motta em toda sua plenitude ao público. Enquanto muitos conhecem a atriz de novelas como "Corpo a Corpo" (1984) e "A Nobreza do Amor", ou a protagonista do filme "Xica da Silva" (1976), poucos têm conhecimento completo da luta vitoriosa que Zezé travou para se impor como artista desde a segunda metade da década de 1960, driblando o racismo profundamente enraizado na sociedade brasileira.
A dramaturgia habilmente evita a abordagem linear de uma enciclopédia, optando por colocar em cena a essência da história de Zezé através de um musical permeado pela exuberante negritude que marcou todo seu caminho nas artes. "Negritude", aliás, foi o título do segundo álbum solo da artista, lançado em 1979 e impulsionado pelo sucesso radiofônico do samba "Senhora Liberdade", presente naturalmente no roteiro do espetáculo.
Performance radiante e elenco harmonioso
No palco do Teatro Raul Cortez, Zezé Motta é personificada nas diferentes fases da vida por Larissa Noel, cuja presença radiante captura a energia da artista sem cair na mimetização superficial. Sob a direção apurada de Débora Dubois, Noel constrói um trabalho fundamentado que encontra eco em um elenco extraordinariamente harmonioso.
O musical proporciona ao público o prazer de aplaudir talentos como Maria Antônia Ibraim, que interpreta a mãe de Zezé, Maria Elazir Motta; Hipólyto, totalmente convincente na breve aparição como Luiz Melodia em dueto com Larissa Noel; e Luciana Carnieli, incrível na reprodução dos trejeitos e da voz da atriz Marília Pêra, grande amiga de Zezé. Arthur Berges também merece destaque pela boa chave cômica na pele do figurinista e maquiador Carlinhos Prieto.
O caráter político e emocionante da cena
A força do musical "Prazer, Zezé!" reside significativamente em seu caráter político. Ao retratar a trajetória vitoriosa de Zezé Motta, enfatizando o racismo sofrido pela artista ao longo da vida e driblado com altivez, o espetáculo afirma de maneira poderosa a potência do povo negro do Brasil.
Um momento especialmente simbólico e emocionante ocorre quando Larissa Noel quebra a quarta parede e entrega o microfone aos espectadores negros presentes na plateia, permitindo que eles se apresentem ao público e ao próprio elenco, declarando seus nomes e profissões. Esta cena transforma o espetáculo em uma experiência coletiva de reconhecimento e afirmação identitária.
Repertório musical que conta uma história
Além do já mencionado "Senhora Liberdade", o espetáculo apresenta composições como "Magrelinha" (Luiz Melodia, 1973) e "Soluços" (Jards Macalé, 1969), músicas que Zezé Motta apropriou ao interpretá-las com sua voz grave, quente e afinada que se tornou sua marca registrada. A direção musical de Claudia Elizeu garante que cada canção sirva não apenas como entretenimento, mas como elemento narrativo essencial para compreender a jornada da artista.
O musical "Prazer, Zezé!" se engrandece ao reafirmar a potência ancestral do povo negro a partir da história pessoal de Maria José Motta de Oliveira. Pela importância da artista homenageada e pela beleza intrínseca do espetáculo, seria mais do que justo que esta produção seguisse em cena por outras cidades do Brasil após o encerramento da aclamada temporada paulistana neste feriado de 21 de abril.
A combinação de performances excepcionais, direção sensível e uma narrativa que entrelaça história pessoal com lutas sociais transforma "Prazer, Zezé!" em muito mais do que um musical biográfico - é uma celebração da resistência, da arte como instrumento de transformação e da beleza negra em toda sua plenitude.



