Artista de Sorocaba lidera produção de mais de 3 mil aquarelas para curta premiado no Sundance
Um talento brasileiro está brilhando no cenário internacional da animação. Daniel Bruson, artista natural de Sorocaba, no interior de São Paulo, liderou uma equipe que produziu e animou mais de 3 mil aquarelas para o curta-metragem "The Baddest Speechwriter of All", que conquistou o Short Film Grand Jury Prize no prestigiado Festival de Sundance.
Colaboração com estrelas internacionais
O projeto reuniu nomes de peso do cinema e do esporte. A direção ficou a cargo de Stephen Curry, estrela da NBA, e do documentarista Ben Proudfoot, duas vezes premiado com o Oscar. Bruson foi convidado para assumir a direção de arte e animação após anos de troca de emails com Proudfoot, finalmente concretizando uma parceria há muito desejada.
"Quando veio o convite, gostei muito do tema e da oportunidade de contar um pouco da história dos movimentos civis e antirracistas nos EUA, que dialogam tanto com os movimentos brasileiros", revela o artista em entrevista exclusiva.
O curta apresenta a história de Clarence B. Jones, advogado e conselheiro que foi um dos principais redatores dos discursos do icônico Dr. Martin Luther King Jr.. A obra oferece uma perspectiva interna do Movimento dos Direitos Civis através da reflexão pessoal de Jones sobre a criação da história.
Equipe 100% brasileira
Acostumado a trabalhar de forma independente em seu estúdio caseiro, Bruson enfrentou o desafio de montar uma equipe para executar o projeto de escala internacional. Com determinação, reuniu 23 artistas brasileiros, todos atuando remotamente de diferentes partes do país.
"Quis chamar apenas artistas brasileiros como forma de, primeiro, estreitar laços nessa comunidade da animação; segundo, conhecer artistas novos; e terceiro, distribuir esses dólares do orçamento aqui dentro do país, com artistas que admiro", explica Bruson.
Os profissionais se dividiram em diversas etapas de produção:
- Storyboard e animatic
- Montagem e animação
- Pintura de aquarela
- Composição e finalização
Processo criativo e desafios logísticos
O trabalho exigiu um ano inteiro de dedicação. Após receber o filme já montado, com espaços livres para a animação, a equipe iniciou o processo de decupagem e pesquisa. Os artistas criaram desenhos digitais detalhados, quadro a quadro, que foram impressos em papel para então começar a pintura em aquarela.
"Definimos uma paleta básica de cores e fomos à pintura. Esses quadros pintados foram digitalizados e todas as peças foram encaixadas na composição digital", detalha Bruson.
A produção remota apresentou desafios logísticos significativos. "Durante os últimos meses, recebi vários pacotes de aquarelas pelo correio, das equipes que tínhamos em São Paulo e Curitiba, para se juntarem às que eu estava pintando aqui em Sorocaba", conta o artista.
Comunicação transcontinental
A coordenação do projeto exigiu comunicação intensa. Bruson e sua equipe brasileira nunca se encontraram pessoalmente com Proudfoot e Curry, mantendo contato constante através de email e dezenas de videochamadas semanais.
"Fui convidado para estar com Ben, Steph e a equipe do filme no Festival de Sundance, mas minha parceira e eu temos uma bebê de um mês em casa e, no momento, não quero sair de perto delas", compartilha o artista sobre sua decisão de não comparecer à premiação em Park City, Utah.
Reconhecimento internacional
Na cerimônia de premiação, Ben Proudfoot recebeu o troféu e destacou a importância da história de Clarence B. Jones, além de reforçar o impacto que um documentário curta-metragem pode ter dentro do cinema.
Em conversa exclusiva, Proudfoot exaltou o trabalho brasileiro: "Daniel é um artista e animador de classe mundial e admiramos o seu trabalho há anos. Sua equipe foi extraordinária, como se pode ver no filme. Todo o mérito é do maestro Bruson e de sua incrível equipe brasileira".
Stephen Curry e Erick Peyton, da Unanimous Media, também enviaram uma nota reforçando que "a história de Clarence B. Jones merece o seu holofote" e expressando orgulho pela colaboração com toda a equipe criativa.
Mensagem atemporal
Bruson destaca que "The Baddest Speechwriter Of All" carrega uma mensagem especialmente relevante no contexto social atual. "O filme surge em um momento em que EUA, Brasil e o mundo enfrentam rompantes autoritários muito violentos", observa.
"Acho que as histórias de Clarence Jones, Martin Luther King e das lutas por direitos civis e contra o racismo e a opressão nos inspiram a viver com propósito, a encarar nossos problemas com coragem", reflete o artista.
Esta conquista se soma a uma carreira já marcada por grandes realizações, incluindo uma indicação ao Oscar de 2024 na categoria Melhor Curta-Metragem de Animação. Bruson demonstra que o talento brasileiro continua a ganhar destaque no cenário cinematográfico mundial, provando que a arte pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social.