Troca de lâmpadas em Goiás provoca debate entre modernidade e tradição
A prefeitura da Cidade de Goiás, localizada no noroeste do estado, iniciou um processo de substituição das lâmpadas de iluminação pública que está gerando intensa discussão entre os moradores. As tradicionais lâmpadas de luz amarela, que adornam os postes coloniais do município, estão sendo trocadas por modelos de luz branca com tecnologia LED.
Justificativas técnicas enfrentam resistência popular
Segundo a administração municipal, a mudança se baseia em razões técnicas e financeiras. As novas lâmpadas de LED oferecem maior iluminação, são significativamente mais baratas e possuem durabilidade superior às antigas lâmpadas de vapor de sódio que emitiam a tonalidade amarelada.
Entretanto, a população local tem manifestado forte descontentamento com a alteração. Moradores argumentam que a luz branca descaracteriza a arquitetura histórica da cidade, que é reconhecida por seu patrimônio colonial.
Moradores expressam apego à iluminação tradicional
Em entrevista à TV Anhanguera, a técnica de enfermagem Emília Maria Emos foi categórica em sua crítica. "As lâmpadas ficaram totalmente destoantes. Com isso, a cidade perde o charme. Você perde tudo. Não tinham nem que ter mexido", afirmou ela, capturando o sentimento de muitos habitantes.
O funcionário público Fábio Júnior Avelar também compartilhou sua perspectiva. "Já estava acostumado com a iluminação amarelada. Dá realmente um impacto visual negativo essa mudança", comentou ele, destacando o choque causado pela nova aparência das ruas.
Já o empresário Marco Antônio Veiga, integrante de uma família tradicional da cidade, abordou a questão sob uma ótica mais profunda. "É necessário dar continuidade ao legado histórico da cidade. Essa alteração da iluminação afetou não só visualmente, mas a nossa intimidade com o espaço urbano", explicou ele.
Especialista explica importância da tonalidade amarela
David Finotti, conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás, esclareceu o significado histórico por trás da iluminação amarelada. "A tonalidade amarela é usada há anos para reproduzir o aspecto dos antigos lampiões que iluminavam a cidade no período colonial", afirmou.
Ele acrescentou: "Essa iluminação com temperatura de cor mais quente, mais próxima desse tom amarelado, faz parte de um conjunto que lembra uma sensação de memória e afeto da população. A luz branca remete a características mais contemporâneas que não dialogam com esse patrimônio".
Prefeitura busca solução de compromisso
Diante da polêmica, a prefeitura está estudando alternativas para conciliar os benefícios da tecnologia LED com a preservação da estética histórica. O secretário de Administração, Dorival Salomé de Aquino, revelou que a administração municipal analisa como manter as lâmpadas de LED enquanto recupera o tom amarelado característico.
"Isso deve ser feito trabalhando o lampião, ou seja, o vidro que emoldura a lâmpada, ou de outra forma técnica. O objetivo é ter a qualidade do LED mantendo a mesma tonalidade original", explicou o secretário, indicando uma possível solução de compromisso.
O g1 procurou a Prefeitura de Cidade de Goiás e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para obter posicionamentos adicionais sobre o assunto, mas não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem.
A situação ilustra um dilema comum em cidades históricas brasileiras: como equilibrar a modernização necessária dos serviços públicos com a preservação da identidade cultural e arquitetônica que define esses locais. Enquanto a prefeitura busca eficiência energética e econômica, os moradores defendem a manutenção de elementos que consideram fundamentais para o caráter único de sua cidade.