Cuiabá: pontos turísticos históricos são 'engolidos' pelo avanço do comércio na capital
Mesmo com papel fundamental na formação da capital mato-grossense, pontos históricos emblemáticos como a Bica da Prainha, a Praça da Mandioca e a Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá têm perdido visibilidade ao longo dos anos, ofuscados pelo avanço acelerado do comércio e pela ausência crônica de políticas públicas de preservação patrimonial. O g1 entrou em contato com a Prefeitura de Cuiabá e com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Espalhados pelo Centro Histórico, esses espaços resistem ao tempo e ao esquecimento, guardando narrativas que ajudam a compreender como a capital se formou e se transformou radicalmente:
- A Bica da Prainha, que já foi essencial para o abastecimento de água potável, também funcionava como ponto de encontro vital da população, mas hoje é vista apenas como a fachada ornamental de um estabelecimento comercial;
- A Praça da Mandioca, que no passado colonial serviu como pelourinho, atravessou séculos e se reinventou continuamente: tornou-se espaço de comércio popular e, atualmente, resiste entre a preservação da memória cultural e o abandono progressivo de um centro urbano que já foi pulsante;
- A Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá, por sua vez, marca historicamente a chegada do protestantismo e revela profundamente a relação intrínseca entre fé e crescimento urbano. Hoje, vive cercada pelo movimento intenso de uma das ruas mais movimentadas do comércio cuiabano.
Mesmo cercados pelo comércio vibrante e pela pressa cotidiana, esses locais seguem como marcos fundamentais da memória coletiva e da identidade cultural cuiabana. É nesse contexto complexo de transformação urbana que o sociólogo e economista Mauricio Munhoz explicou ao g1 quando Cuiabá começou a se consolidar definitivamente como uma cidade de comércio estruturado.
Transformação econômica e apagamento cultural
"A integração ao agronegócio e com a economia nacional transformou radicalmente a cidade. Ela deslocou a lógica tradicional de sociabilidade para uma lógica predominante de mercado. E como consequência direta, espaços centrais históricos, como a Praça Mandioca, a Bica da Prainha e a igreja presbiteriana, perderam o protagonismo social. Não porque elas não têm importância histórica, mas porque a capital desenvolveu uma outra organização urbana. E isso promove sistematicamente o apagamento da cultura local, o apagamento simbólico desses locais", comentou Mauricio Munhoz detalhadamente.
Bica da Prainha: de fonte vital a ornamentação comercial
Construída no século XVIII, a Bica da Prainha foi uma das principais fontes de água potável de Cuiabá em um período histórico sem abastecimento regular, chegando a abastecer aproximadamente 5 mil pessoas diariamente. A cidade possuía cerca de sete bicas, e essa era considerada uma das mais importantes estrategicamente.
Segundo a historiadora Cristina Soares, o local reunia moradores diariamente, principalmente durante as manhãs, quando buscavam água para atividades domésticas básicas. Com o tempo, o espaço deixou de ser apenas funcional e se tornou ponto de encontro social essencial. "As conversas variavam entre notícias da cidade, relações pessoais, comentários sobre o cotidiano e até questões políticas relevantes, o que nos permite compreender a bica também como um espaço vital de circulação de informações. É importante destacar que grande parte das pessoas que realizavam esse trabalho eram indivíduos escravizados", explicou a historiadora.
Além de garantir o abastecimento hídrico, a bica influenciou decisivamente a ocupação urbana da cidade, com ruas e moradias sendo organizadas ao redor desses pontos estratégicos. "Muitas vezes, as pessoas transitam pelo local sem reconhecer sua importância histórica profunda. Esse distanciamento revela, em grande medida, um processo mais amplo de apagamento da memória urbana coletiva. A intensificação do fluxo de pessoas, as mudanças na ocupação dos espaços e a reorganização do comércio acabam alterando radicalmente a forma como esses locais são percebidos", afirmou Cristina Soares.
Hoje, espremida entre avenidas movimentadas e o vai e vem apressado do comércio, a bica quase desaparece da paisagem urbana contemporânea. Para muitos que passam rapidamente, ela não é mais do que um detalhe arquitetônico, facilmente confundida com a fachada ornamentada de uma loja comercial. O g1 entrou em contato com o proprietário da loja, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem. Ali, onde antes havia significado histórico profundo, resta apenas um vestígio silencioso. A única identificação visível é o nome da construtora responsável pela intervenção no espaço. O nome da bica, sua história rica e a importância que um dia carregou não são mencionados publicamente.
Praça da Mandioca: símbolo de resistência cultural
A Praça da Mandioca reúne diferentes fases históricas fundamentais da história de Cuiabá. No período colonial, o local foi usado como espaço de punição pública, com a instalação de um pelourinho, e está visceralmente ligado a um passado de violência institucional, principalmente contra pessoas negras escravizadas. Com o tempo, a área foi transformada em espaço de comércio popular e convivência comunitária, com feiras tradicionais de alimentos, o que deu origem ao nome popular da praça.
Para quem não conhece a história profunda da praça, pode lembrar do local apenas como um ponto de encontro casual, um local para encontrar os amigos, mas a história do local é muito mais complexa e significativa. A praça é um ponto cultural vital e símbolo poderoso de resistência e valorização da cultura negra na cidade.
Segundo Cristina Soares, a praça mostra claramente como o espaço foi ressignificado ao longo do tempo. "É necessário reconhecer a praça como um marco fundamental da história da cidade e, sobretudo, da história da população negra cuiabana. Valorizar esse espaço é, também, valorizar as trajetórias, os saberes tradicionais e as experiências que foram historicamente silenciados", reforçou a historiadora enfaticamente.
Antonieta Costa, representante da Casa das Pretas e moradora da região desde o nascimento, contou ao g1 que a história da comunidade cuiabana com o espaço se estende por décadas e tem se transformado continuamente ao longo do tempo. Ela lembra que o carinho pela praça vem desde a época de seus avós e se estende a diversos outros moradores, que vivenciavam o local intensamente, que inclusive, abrigava, anos atrás, a tradicional feira que marcou profundamente a vida dos moradores do entorno.
"Era uma feirinha pequena, mas muito significativa para as pessoas do Araés e do próprio centro-norte. Até gente da Lixeira e Baú vinham regularmente. O entorno da praça é muita família tradicional, tanto que hoje tem muitos idosos ainda morando aqui", afirmou Antonieta Costa.
Para Antonieta, a praça não é apenas um espaço físico, é um território vital de acolhimento comunitário e memória coletiva, que vem tendo a história e visibilidade ameaçadas pelo apagamento progressivo de tradições e atividades culturais tradicionais do local ao longo dos anos. "O legal da praça é isso, é poder receber, nós estamos com um processo de apagamento cultural, e não é só apagamento histórico, mas apagamento da visibilidade pública. Por exemplo, o próprio Carnaval, não teve uma atividade aqui recentemente, não teve uma banda para tocar, uma bandinha que tinha tinha a marchinha para as crianças", contou lamentando.
Para ela, fortalecer um espaço histórico é também reviver a memória coletiva e garantir que ela seja mantida viva. "Quando se fortalece um espaço, você também fortalece a história, você também reaviva a memória, você também faz com que aqueles personagens, aquelas pessoas que viveram, que vivem ali, ganhem vida novamente. Porque o que é histórico não pode ser um resumo morto", destacou Antonieta Costa emocionadamente.
Primeira Igreja Presbiteriana: fé e crescimento urbano
Localizada no Centro Histórico, a Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá é tombada pelo Iphan e representa significativamente a diversidade religiosa da capital. O g1 entrou em contato com a administração da Igreja e com o Iphan, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Maurício Munhoz explica que o surgimento histórico da capital, está diretamente ligado à influência predominante da Igreja Católica. A cidade se organizava tradicionalmente ao redor da igreja matriz, que funcionava como centro urbano, social e até político decisivo. Era ali que se definiam valores sociais, comportamentos aceitáveis e normas da sociedade local.
"Já a partir do século XIX, com a chegada de missionários protestantes, principalmente presbiterianos, há uma mudança importante culturalmente. Essas igrejas passam a incentivar ativamente a alfabetização, a leitura da Bíblia e a educação formal, além de valores como disciplina, organização e trabalho árduo. Isso cria uma nova dinâmica social e cultural na cidade", explicou o sociólogo detalhadamente.
Hoje, a Igreja funciona ao lado de um dos maiores centros comerciais da capital. Para Cristina Soares, além da importância religiosa evidente, a igreja também revela profundamente a relação complexa entre fé, modernização acelerada e crescimento urbano desordenado. "O local, com sua arquitetura marcante e sua relevância histórica inegável, permanece como um testemunho vivo desse passado, mas sua visibilidade acaba reduzida drasticamente diante da intensidade do comércio ao seu redor", afirmou a historiadora conclusivamente.



