Plano com estudos e financiamento inédito busca corrigir prédios tortos em Santos
Plano com financiamento inédito busca corrigir prédios tortos em Santos

Projeto inédito busca corrigir prédios tortos em Santos com financiamento do BNDES

Um ambicioso projeto está em andamento para desafiar a engenharia e transformar a paisagem da orla de Santos, no litoral de São Paulo. A iniciativa, que pode se tornar um canteiro de obras de uma solução milionária e inédita em larga escala, visa corrigir a inclinação dos icônicos prédios tortos da cidade. A busca por uma proposta une a Prefeitura de Santos e a Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI), com foco em desenvolver um novo modelo de financiamento através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES.

Reunião no BNDES apresenta proposta de financiamento

No fim de março, uma reunião na sede do BNDES marcou a apresentação de uma sugestão crucial: a criação de uma nova modalidade de financiamento para contemplar as obras de reaprumo dos prédios. A ideia é que o banco permita, por meio de financiamento, que os recursos cheguem aos moradores, com a Prefeitura de Santos atuando como terceiro garantidor. Isso significa que a administração municipal ofereceria segurança ao BNDES, garantindo o pagamento da dívida caso os tomadores não honrem os compromissos.

Atualmente, Santos possui 319 prédios com alguma inclinação, sendo 65 concentrados na região da orla da praia. Embora não haja risco imediato aos moradores, não existem garantias a longo prazo sobre a estabilidade das estruturas. O prefeito Rogério Santos (Republicanos) explicou que o BNDES ainda não tem um modelo de financiamento para áreas particulares com intermediação pública, tornando essa uma tarefa inédita para o banco.

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Modelo de engenharia e características do solo

Um exemplo bem-sucedido de correção é o edifício Núncio Malzoni, que tinha inclinações de 2,2° e 1,8° em seus blocos e foi reaprumado nos anos 2000. A obra, custeada com recursos próprios dos moradores, envolveu o uso de macacos hidráulicos para erguer o prédio, apoiar os pilares e executar uma nova fundação. O engenheiro Paulo Pimenta, responsável por novos estudos em quatro prédios da orla, destacou que a inclinação está relacionada às características do solo de Santos.

Segundo Pimenta, a área da orla tem uma camada de areia de cerca de 10 metros de profundidade, seguida por uma argila marinha muito mole. As construções antigas, erguidas entre as décadas de 50 e 80, não alcançavam as camadas mais profundas de solo residual e rocha, levando a deformações. "Ninguém pensou que eles podiam se inclinar. E por que eles se inclinam? Porque se você faz dois prédios mais ou menos ao mesmo tempo, um 'puxa' o outro", explicou o engenheiro.

Soluções técnicas e custos milionários

Paulo Pimenta elaborou estudos que consideram quatro soluções possíveis para cada edifício, incluindo estabilização com estacas, construção de estruturas para transferir carga, e o uso de macacos hidráulicos para reaprumo. Cada alternativa tem vantagens, desvantagens e custos variados, podendo ser combinadas conforme as características específicas de cada prédio.

De acordo com o secretário municipal de Governo, Fábio Ferraz, a estimativa de orçamento apresentada ao BNDES é de R$ 7 milhões a R$ 10 milhões por prédio, baseada em uma atualização dos custos do edifício Núncio Malzoni. Esses valores refletem a complexidade e a escala do projeto, que visa não apenas corrigir a inclinação, mas também prevenir futuros riscos estruturais.

Desafios do financiamento e próximos passos

A modelagem de financiamento enfrenta dificuldades devido à natureza privada dos condomínios. O BNDES tradicionalmente financia obras de infraestrutura pública, mas está estudando como apoiar projetos com relevância social e urbana, como explicou o prefeito. Inicialmente, os prédios associados à ACOPI seriam os primeiros atendidos, com a possibilidade de estender a iniciativa a todos os edifícios inclinados da cidade.

O BNDES aguarda a apresentação formal de projetos pela Prefeitura de Santos, incluindo detalhes de engenharia, orçamento, cronograma e aspectos jurídicos. Ferraz afirmou que a reunião de março foi produtiva, e há uma "lição de casa" a ser cumprida, com mais reuniões planejadas para definir a viabilidade do financiamento.

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Perspectivas dos moradores e urgência do projeto

A presidente da ACOPI, Eliana de Mello, expressou otimismo com a possibilidade de financiamento, destacando a necessidade de ação. "É a hora da gente tomar a frente, fazer alguma coisa", disse ela, rebatendo a ideia de que os prédios da orla pertencem apenas a pessoas abastadas que não precisariam de apoio.

Embora os prédios atualmente não apresentem risco estrutural imediato, com laudos técnicos emitidos a cada dois anos, o engenheiro Paulo Pimenta alerta para a importância do reaprumo. "Um prédio não foi feito para ficar inclinado... existe um momento em que a inclinação fica tão grande que o edifício tem perigo de ruir". Ele estima que há uma margem de segurança de 10 a 15 anos, mas enfatiza que Santos deve agir para evitar futuras interdições ou demolições.

Com um plano que combina estudos técnicos detalhados e um financiamento inédito, Santos busca não apenas corrigir seus prédios tortos, mas também estabelecer um precedente para soluções de engenharia em larga escala, garantindo segurança e preservando sua paisagem icônica para as gerações futuras.