Estudo de tombamento do Complexo Beira Rio é aberto pelo Condephaat em Piracicaba
O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), órgão estadual de São Paulo, decidiu pela abertura do estudo de tombamento do Complexo Beira Rio em Piracicaba (SP). A decisão foi tomada durante uma reunião realizada nesta segunda-feira (9), marcando um passo significativo na proteção deste importante conjunto histórico e cultural da cidade.
Composição e importância do complexo
O Complexo Beira Rio é composto por quatro elementos principais que refletem a rica herança de Piracicaba:
- Fábrica Boyes: um ícone industrial que testemunhou o desenvolvimento econômico da região.
- Palacete Luiz de Queiroz: uma construção histórica que evoca a arquitetura e o estilo de vida de épocas passadas.
- Praça Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz: um espaço público que integra a comunidade ao ambiente ribeirinho.
- Museu da Água: uma instituição dedicada à preservação da memória hídrica e ambiental local.
Estes locais estão estrategicamente situados às margens do rio Piracicaba, formando uma paisagem única que combina patrimônio construído e natural. O estudo do Condephaat avaliará minuciosamente o interesse histórico e cultural de cada componente, considerando sua relação com a formação urbana da cidade e sua conexão simbólica com o rio.
Proteção provisória e processo de análise
Enquanto o estudo está em andamento, os bens que compõem o Complexo Beira Rio recebem proteção provisória. Esta medida visa evitar alterações ou descaracterizações que possam comprometer seu valor patrimonial. Assim, quaisquer obras ou intervenções no local só poderão ser realizadas após análise prévia e aprovação expressa do Condephaat.
O órgão não estabeleceu um prazo específico para a conclusão do estudo, que é um processo técnico detalhado. A análise considera múltiplos aspectos, incluindo:
- O valor histórico intrínseco de cada edificação e espaço.
- A relação do complexo com o desenvolvimento urbano e social de Piracicaba.
- As características arquitetônicas e paisagísticas dos bens.
- O impacto ambiental e cultural da preservação.
O resultado final será um parecer técnico abrangente. Se aprovado, este parecer pode levar ao tombamento definitivo do complexo a nível estadual, garantindo sua proteção legal permanente.
Conflito com projeto imobiliário Boulevard Boyes
Esta decisão ocorre em um contexto de tensão com o projeto imobiliário Boulevard Boyes, que prevê a demolição de seis dos treze prédios da antiga fábrica para a construção de quatro torres residenciais de aproximadamente 90 metros de altura. Os empreendedores do projeto informaram que não se manifestarão sobre o assunto no momento, mantendo uma postura reservada.
O projeto, que foi aprovado pela maioria dos votos do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) em junho de 2023, enfrenta atualmente uma suspensão judicial. Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) em 2025 acolheu um recurso movido por associações ambientais do município, mantendo a paralisação das obras.
O relator do caso, desembargador Martin Vargas, destacou que a construção das torres poderia causar danos irreversíveis ao espaço às margens do rio. A medida suspensiva permanecerá válida até que o processo de tombamento da área da Fábrica Boyes seja concluído na esfera estadual, criando um cenário de incerteza para o empreendimento.
Movimento Salve a Boyes e apoio ao tombamento
O Movimento Salve a Boyes, juntamente com diversas entidades, coletivos, organizações culturais, ambientais e cidadãos, manifestou apoio à abertura do estudo de tombamento. Em nota, o movimento afirmou que esta decisão representa um reconhecimento institucional da relevância histórica, cultural e simbólica da área.
Os defensores da preservação destacam que o complexo tem importância ambiental e paisagística estratégica para Piracicaba e para o Estado de São Paulo. Eles argumentam que o patrimônio cultural está intrinsecamente associado às margens do rio, à paisagem do Salto do rio Piracicaba e aos bens industriais que estruturaram o desenvolvimento econômico e social da região.
Este embate entre preservação histórica e desenvolvimento imobiliário reflete debates mais amplos sobre o uso do espaço urbano e a valorização da memória coletiva. O desfecho do estudo do Condephaat poderá definir o futuro não apenas do Complexo Beira Rio, mas também servir como precedente para outras áreas patrimoniais em conflito semelhante.