Copan em SP: icônico prédio de Niemeyer vira 'hotel' com mais de 200 apartamentos Airbnb
Copan vira hotel com 200+ apartamentos Airbnb em SP

Copan: do símbolo arquitetônico ao grande hotel de apartamentos em São Paulo

Em uma típica sexta-feira à tarde, na entrada do bloco B do Copan, o maior conjunto habitacional da América Latina localizado no Centro de São Paulo, uma cena reveladora se desenha. Uma pequena fila de turistas com malas aguarda pacientemente a abertura das portas do elevador, enquanto uma mulher sai carregando um saco de roupas para lavar que ostenta a inscrição: "Airbnb no Copan". Esta imagem sintetiza a transformação radical que o icônico edifício projetado por Oscar Niemeyer vem experimentando nas últimas décadas.

Uma rotina de hotel em prédio residencial

Os 22 elevadores do Copan realizam diariamente um vai-e-vem constante, transportando não apenas moradores tradicionais, mas também hóspedes de curta temporada, funcionários de limpeza e carrinhos repletos de lençóis e toalhas para troca. Uma dinâmica que mais se assemelha à de um estabelecimento hoteleiro do que a de um condomínio residencial. Alexandre Araújo, morador que aluga um apartamento no local há oito anos e é proprietário de uma barbearia na galeria térrea, descreve a realidade: "Tem dia que você tem que pedir licença para os hóspedes para conseguir entrar no seu bloco".

Números que impressionam e dividem opiniões

Dos 1.160 apartamentos que compõem o Copan, mais de 200 unidades já estão destinadas ao aluguel de curta temporada, especialmente através da plataforma Airbnb. Este volume coloca o edifício em patamar similar ao de hotéis de médio porte, como a movimentada unidade da rede Ibis da Avenida Paulista, que conta com 236 quartos. Judson Sales, empresário que administra mais de 100 desses imóveis através de seu negócio "Airbnb no Copan", revela números significativos: foram 3 mil hóspedes apenas em 2025. As diárias variam amplamente, desde aproximadamente R$ 300 para quitinetes até R$ 2 mil para apartamentos de dois quartos.

Entretanto, essa transformação gera profundas divisões entre os residentes. Nos grupos de WhatsApp dos moradores e nas reuniões de condomínio, o tema dos hóspedes de temporada é constante. Maíra Rosin, historiadora e pesquisadora em urbanismo que vive no Copan há 11 anos, avalia criticamente: "É desconfortável para quem mora aqui, porque cria um fluxo de pessoas que são alheias ao prédio. Você entender um lugar como seu espaço de moradia é completamente diferente de entender como espaço de férias, de passagem".

Conflitos cotidianos e questões de segurança

As reclamações mais frequentes recebidas pela administração do condomínio referem-se a problemas de barulho. Maíra Rosin relata um episódio emblemático: ao entrar no elevador, deparou-se com dois hóspedes "completamente bêbados", com garrafa de vinho e caixa de som no volume máximo. Quando demonstrou descontentamento, ouviu como resposta: "Tem gente que não sabe se divertir". Além disso, há registros de uso de apartamentos para gravações de filmes eróticos e até de pessoas subindo nos brise-soleil da fachada, prática proibida por questões de segurança.

Judson Sales defende seu modelo de negócio, argumentando que implementou regras cada vez mais rígidas para os hóspedes, incluindo proibição de visitas não cadastradas e registro obrigatório no condomínio com documento e foto. O empresário equipara os incômodos causados pelos turistas aos problemas comuns entre vizinhos: "Também me sinto muito incomodado quando o teto do meu apartamento tem vazamento, e o morador de cima se recusa a resolver. Ou cachorro que faz xixi no corredor".

Um limbo jurídico que alimenta a disputa

No Brasil, ainda não existe legislação específica que regule os aluguéis por temporada em plataformas digitais, criando um vácuo legal que resulta em decisões judiciais conflitantes. Algumas interpretações do Superior Tribunal de Justiça sugerem que, na ausência de proibição explícita na convenção do condomínio, a prática estaria permitida. Outras entendem que a simples previsão de uso residencial na convenção já seria suficiente para vedar os aluguéis de curta duração.

Atualmente, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 4/2025, do senador Rodrigo Pacheco, que propõe reformar o Código Civil para exigir permissão expressa na convenção condominial para hospedagens em edifícios residenciais. Guilherme Milani, novo síndico do Copan que assumiu após a morte de Affonso Celso de Oliveira – síndico por mais de 30 anos –, acredita que a regulamentação trará mais clareza e ajudará a apaziguar os ânimos no prédio.

Transformação histórica e futuro incerto

O Copan, acrônimo de Companhia Pan-Americana Hotéis e Turismo, foi originalmente concebido como parte das comemorações dos 400 anos de São Paulo em 1954. O projeto visionário previa um complexo com dois edifícios – um residencial e um hotel – além de teatro e cinema. Contudo, apenas a torre residencial de 32 andares foi concluída, com ocupação iniciada em 1962 após oito anos de atraso.

Após décadas de deterioração durante os anos 1980, o prédio passou por intensa revitalização a partir dos anos 1990, transformando-se em endereço cobiçado por celebridades como o ator Caio Blat e o apresentador Paulo Vieira. Os primeiros anúncios no Airbnb surgiram por volta de 2014, inicialmente contra a vontade do então síndico Affonso Celso de Oliveira, que posteriormente adotou postura mais conciliadora.

Hoje, enquanto o Copan prepara-se para reabrir seu cinema em 2027 – patrocinado pelo Nubank – e planeja uma ambiciosa reforma de fachada estimada em R$ 68 milhões, a administração e os empresários do setor acreditam que a "febre do Airbnb" pode estar próxima de um limite. Guilherme Milani pondera: "Por isso, não acredito que o prédio inteiro vai virar Airbnb". Judson Sales vai além, prevendo que muitos dos novos edifícios vendidos como investimento para curta temporada vão "naufragar", diferentemente do Copan que possui atrativo arquitetônico intrínseco.

Enquanto isso, os moradores seguem divididos entre os benefícios econômicos trazidos pelo turismo e os incômodos da convivência com fluxo constante de estranhos em seu lar. Uma turista de Brasília que se hospeda pela quinta vez no edifício sintetiza o paradoxo: "Pessoalmente, sou contra o Airbnb, mas não sou eu sozinha que vou mudar o sistema". O Copan, assim, torna-se microcosmo de uma discussão nacional sobre o futuro das cidades, turismo e moradia no século XXI.