Convento de 400 anos em Itanhaém busca parceiros para obra de restauro histórico
No alto do Morro do Itaguaçu, em Itanhaém, uma das primeiras edificações do Brasil mantém viva uma história que remonta aos primórdios da colonização. O Conjunto Arquitetônico da Igreja e Ruínas do Convento Nossa Senhora da Conceição, com aproximadamente quatro séculos de existência, é um marco cultural que agora busca parceiros para um ambicioso projeto de restauro conservativo.
Patrimônio tombado e valor histórico inestimável
Reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1941, este templo começou como uma pequena ermida de barro e evoluiu para a igreja em homenagem à padroeira de Itanhaém. Recentemente, o local sediou o Fórum do Patrimônio Histórico e Requalificação Urbana, promovido pela Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém (AEAI), onde foram discutidos caminhos para áreas de interesse histórico.
A arquiteta e urbanista dra. Regina Helena Vieira Santos, com três décadas de experiência em projetos de restauro e conservação do patrimônio cultural, conduziu uma das palestras mais aguardadas do evento. Ela coordena o projeto de restauro arquitetônico conservativo do conjunto, que conta com fomento do Programa de Ação Cultural - ProAC nº 13/2024, na linha "Arquitetura para ocupação de bens tombados pelo CONDEPHAAT".
Um espaço que conta a história da colonização
"O espaço é um marco na ocupação do território indígena nos primeiros séculos da colonização", analisa Regina. "O contexto histórico na Europa vivendo nas artes o Renascimento, a expansão marítima com corajosos que saíam em caravelas em busca de novas rotas, a religião foi estratégia de diálogo e apropriação das novas terras."
A profissional destaca que a localização no alto de morros era usual na época, e elementos arquitetônicos como as janelas seteiras - que permitiam ver sem ser visto - demonstram que era um espaço tanto de defesa quanto de ataque. "Itaguaçu, grande pedra, há 400 anos atrás, era a referência dos ameríndios; no topo do morro, destacando-se na paisagem a construção de pedra e cal, parte hoje em belíssimas ruínas. Mais que identidade de Itanhaém, é um registro da história", completa.
Desafios e prazos do projeto de restauro
O principal desafio, segundo a arquiteta, é realizar um projeto complexo em cerca de dez meses. "Os desenhos são a representação gráfica do que será executado no imóvel, são essenciais na comunicação com os órgãos de preservação, que irão analisar a proposta, são fundamentais para quantificar e realizar os orçamentos", explica Regina.
Ela menciona ainda outros dois edifícios emblemáticos em Itanhaém: a Câmara e Cadeia, e a Matriz Santana. A área no entorno possui casario do século XVI edificado com técnicas à base de barro como o pau-a-pique e a taipa de pilão. Infelizmente, segundo a especialista, Itanhaém perdeu muito com intervenções urbanas e edilícias equivocadas, restando pouco das edificações que compõem o contexto histórico que harmonizam com os monumentos.
Princípios universais de conservação
Com experiência internacional, Regina traz inspirações de vários países, embora destaque que as técnicas de conservação sejam as mesmas em todo mundo. "Os princípios de conservação e recuperação de edificações antigas são universais, as cartas patrimoniais estão em todos os continentes", afirma.
Ela faz uma metáfora com as regras de jogos olímpicos que valem em todos os países: "A técnica é uma ciência que passou a ser estudada após a Revolução Francesa que destruiu muitos monumentos. No decorrer dos séculos 19 e 20, os estudos e diretrizes foram discutidos em congressos técnicos e resultaram em documentos conhecidos como 'cartas patrimoniais'."
Entre os princípios fundamentais, Regina destaca a distinguibilidade entre o original e o novo: "Nunca fazer cópias que induzam ao 'falso histórico', lembrar que o novo é sempre coadjuvante, deve ser neutro."
Expectativas e envolvimento comunitário
A expectativa em torno da restauração é imensa, e os integrantes deste projeto estão empenhados na realização da obra, prezando preservar esta memória viva. "A Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém faz parte disso, tanto que criou uma Comissão de Patrimônio com a participação de arquitetas/os e engenheiras/os que têm interesse na preservação cultural em Itanhaém, isso é muito positivo para a cidade e perante ao Estado e Federação", comemora a arquiteta.
O projeto já foi apresentado à Irmandade Nossa Senhora da Conceição, provedora da proposta, com a presença da maestrina e provedora Sra. Andrea Holtz Terovydez. A meta agora é viabilizar as obras de restauro, eliminar o risco iminente na edificação, e devolver um patrimônio cultural acessível a todos.
"Conhecer o patrimônio, suas características construtivas, é essencial para entender o valor cultural, e assim realizar a manutenção adequada, a conservação apropriada, e às vezes o restauro com usos compatíveis e atuais", finaliza Regina. "A meta é ressignificar no presente, os bens do passado para as futuras gerações."



