Sarapuí celebra 154 anos com casarões históricos que preservam a memória da cidade
A cidade de Sarapuí, localizada no interior do estado de São Paulo, comemora nesta sexta-feira (13) seus 154 anos de emancipação político-administrativa. Para marcar essa data significativa, a cidade se orgulha de preservar aproximadamente 40 casarões antigos, distribuídos tanto na zona urbana quanto na rural, muitos deles com mais de um século de história. Essas construções são verdadeiros testemunhos da trajetória e identidade do município, oferecendo um vislumbre do passado que moldou a região.
Três casarões emblemáticos no centro da cidade
No centro de Sarapuí, três imóveis históricos se destacam por sua proximidade, estando a apenas 600 metros de distância um do outro. O primeiro, situado na Rua Doutor Cerqueira César, foi erguido há cerca de 126 anos por imigrantes alemães. O segundo, na Rua Doutor Luiz Vergueiro, completa 111 anos e serviu como casa paroquial. Já o terceiro, na Rua Quintino Bocaiúva, foi construído há mais de 140 anos, em um estilo colonial brasileiro que remonta ao período entre 1850 e 1870.
Um casarão que encantou um viajante
Na década de 1960, o viajante Francisco Chiaffitelli passou por Sarapuí e ficou impressionado com os casarões antigos, comparando-os às construções típicas de Minas Gerais. Ele se encantou particularmente com o imóvel da Rua Quintino Bocaiúva, decidindo comprá-lo. A casa, feita de madeira, taipa e barro, não tem registros oficiais sobre seu construtor original. Após a morte de Francisco, a propriedade foi cuidada por sua filha, Maria Thereza, e posteriormente por seus netos, como João Paulo Netto, de 56 anos, que hoje é um dos responsáveis por preservar o casarão.
Segundo João Paulo, quase 80% do imóvel permanecem intactos desde sua construção. Quando reformas são necessárias, a família utiliza métodos tradicionais, como o uso de cal para pintura e reforço das amarrações das taipas, garantindo a originalidade da estrutura. "Tudo que é possível manter em relação à originalidade da casa nessa reforma se mantém. Então, o imóvel continua da mesma forma", explica ele. Os móveis dentro do casarão também são históricos, muitos adquiridos por Francisco em viagens a Minas Gerais e Bahia, refletindo o gosto da família por objetos antigos.
João relata que, após a morte de sua mãe, alguns moradores sugeriram derrubar o casarão para construir algo mais moderno, mas a família resistiu. "As pessoas às vezes confundem um pouco esse tipo de imóvel com uma casa velha. Óbvio que dá muito trabalho, não é fácil cuidar desse tipo de imóvel. Para nós é importante", afirmou. A casa possui paredes com quase 80 centímetros de espessura, pintura em tons de branco e azul, e portas e janelas características do estilo colonial, embora não haja confirmação histórica sobre relatos de que pessoas escravizadas tenham vivido no local.
Herança alemã e hotel histórico
Outro casarão centenário, com 126 anos, foi projetado pelo imigrante alemão Frederico Augusto Holtz e está localizado na Rua Doutor Cerqueira César. Este imóvel funcionou como o Hotel Paulista, oferecendo refeições e hospedagem para viajantes e tropeiros, e também abrigou um armazém que deu origem à tradicional Loja Holtz. Em 1947, Lázaro Frederico Holtz assumiu a gestão, e hoje seus filhos, Maria Dolores Holtz e Eduardo Holtz, administram o comércio de tecidos no local.
Os irmãos, que representam a quarta geração da família a cuidar do prédio, contam que cresceram ouvindo histórias ligadas ao imóvel. "Representa história e infância. Reunimos a família e fazíamos uma festa. É lembrança dos avós cozinhando para os netos", disse Eduardo. O casarão, construído em estilo colonial com cerca de 450 metros quadrados, mantém suas telhas de barro originais, moldadas por pessoas escravizadas, além das paredes, portas e janelas originais. Eles destacam que nunca houve discussões sobre demolir o prédio, com moradores e visitantes elogiando sua preservação. "É um privilégio. A gente fica contente quando vêm pessoas de fora. Elas acham bonito o estilo", afirma Maria Dolores, acrescentando que a família prefere manter o imóvel sob seus cuidados sem processo de tombamento.
Casa paroquial e igreja centenária
Com quase 596 metros quadrados, outro imóvel histórico foi construído na década de 1910 e serve como residência para os padres da Igreja Nossa Senhora das Dores, na Praça Vicente Mozillo. O pároco Leandro de Almeida Fogaça explica que a casa foi comprada em 6 de janeiro de 1935 pela Mitra Diocesana de Sorocaba e representa um espaço de memória e identidade. "Preservar essa casa significa fazer um mergulho no passado, reconhecendo que o presente que vivemos hoje é fruto da história daqueles que vieram antes de nós", relatou.
Próxima à casa paroquial, a Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores foi construída por pessoas escravizadas em 1832, elevada à condição de paróquia em 1844, e recebeu um relógio na torre em 1960. "A paróquia é um lugar onde as pessoas se encontram, criam amizade, trabalham juntas e constroem um verdadeiro espírito de família", reforçou o padre, destacando a importância da preservação para valorizar a memória da cidade.
Importância da preservação do patrimônio
O professor, pesquisador e arquiteto Igor Chaves, de Itapetininga, enfatiza que os casarões precisam ser preservados, estudados e registrados para que as novas gerações possam compreender o passado. "A preservação de prédios históricos é fundamental não apenas por seu valor arquitetônico ou estético, mas sobretudo por aquilo que representam: são testemunhos vivos da história, das memórias coletivas e das formas de vida que moldaram a identidade de nossa cidade", apontou. Ele destaca que a demolição de tais construções fere princípios constitucionais, sendo uma questão de responsabilidade social e comunitária.
Em nota, a Prefeitura de Sarapuí informou que produziu um livreto reunindo a história dos 40 casarões antigos, muitos dos quais preservam características arquitetônicas originais. "A preservação desses casarões representa a manutenção da memória e da identidade histórica de Sarapuí", ressaltou a prefeitura, mencionando que a maioria é de propriedade privada e não está aberta à visitação turística, mas há discussões futuras para iniciativas de valorização do patrimônio e fortalecimento do turismo cultural.
